Nove coisas que pessoas brancas podem fazer para apoiarem a luta preta

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Cansou de ser chamado de biscoiteiro, apropriador, colonizador e racista? Eis a solução


Eu não vou fazer um parágrafo explicando o que o racismo significa para a evolução do homem na terra e a quantidade de problemas sociais e humanos que foram criados junto com a ideia de que algumas pessoas são superiores a outras. 

Vocês estão cansados de saber que há pelo menos mil anos a cultura branca vem perseguindo, usurpando, estuprando, desprezando, colonizando tudo o que é não-branco e a vida na terra tem sido uma grande merda por causa disso.

Não quero me estender dizendo que a participação dos brancos que dizem não serem racistas é essencial para o fim do racismo como prática cotidiana. Primeiro porque os racistas são brancos, então meio que é algo que vocês tem que resolver entre vocês mesmo, e segundo porque brancos que não são racistas e que querem de fato contribuir para acabar com esse inferno, muitas vezes parece  que não sabem que a relação deles com tudo o que é não-branco é extremamente problemática e isso se dá por ideias que vocês mesmo criaram. É meio confuso mas resume-se em: racismo é um lance meio que de branco mesmo.
Mas como de boas intenções o inferno tá lotado, nove coisas que brancos podem fazer para apoiarem a luta preta.

Nove músicas para entender o Baile da Lolo

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Este texto é o terceiro do compêndio Manifesto do Samba Abstrato

3- Nove músicas para entender o Baile da Lolo


O Baile da Lolo é uma performance carnavalesca política satírica preto. Em outras palavras, é um baile à fantasia inspirado nos coxinhas, paneleiros, seus amigos aristocratas donos do mundo e toda essa galera que simplesmente acaba com a nossa vida todos os dias batendo suas panelas, atrasando nosso rolê e empatando a nossa foda.

Perucas loiras, sapatênis e pulovers já estão na pista e a festa Amem Brother está no controle. Biel Lima encarna Francisquinho Filho Júnior III que junto a anfitriã Lolo Figueiroa com sua panela em punho recebe os convidados. O clima é de desvario onírico e a festa começa.

Francisquinho iniciando os trabalhos no Baile da Lolo (foto: Mariana Ser)

Simbolizando o final de um ciclo e início de uma nova era de estéticas e narrativas pretas, nove músicas para entender o Baile da Lolo.


O Manifesto do Samba Abstrato

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lindamarxs Carnaval de 2017(1)



Parte I


Sobre apropriação cultural e outros sambas



A cara do carnaval



Num mundo de imagens e símbolos, é preciso o máximo de criatividade estética visual para expressarmos nossas ideias. A impaciência do modelo de pensamento baseado na rapidez do processamento de dados, o mundo dos cliques e da falta de tempo para se debruçar nas questões e conceitos, sair do raso do lugar-comum antes de emitir opiniões e ter certezas é dos grandes dilemas contemporâneos. Tome seu tempo para ler as informações e digerir as ideias descritas a seguir e bom carnaval.


Baile da Lolo

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Anexo do Manifesto do Samba Abstrato 2017

Este é o texto principal do compêndio Manifesto do Samba Abstrato




Nascida no Carnaval de 2016, Lolo Figueiroa foi celebrada como um dos novos personagens do carnaval de São Paulo: Lolo, a Paneleira, popularmente conhecida como Branca Maluca, trouxe de forma cômica o debate político e social para o carnaval de rua.

Neste ano, Lolo Figueiroa orgulhosamente apresenta o *Baile da Lolo*, uma festa à fantasia onde festejaremos a decadência moral e a estética mofada da elite brasileira: entre paneleiros, patricinhas alienadas e playboys, o evento é uma crítica à semântica destes atores da sociedade e da política nacional.


Sim, precisamos de um AirBnB para viajantes pretos

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Três startups lançaram versões alternativas ao Airbnb depois que usuários relataram discriminação racial ao buscarem acomodação no site.







NoirBnB e Innclusive (antes por coincidência chamada NoireBnB) são duas startups criadas por profissionais pretos para responder a seguinte necessidade: oferecer acomodações seguras e acolhedoras para viajantes pretos de todo o mundo. 

Não demorou muito para o sonho da economia sustentável democrática acabar e os usuários perceberem que o AirBnB é basicamente branco e seus usuários querem que continue assim


Racismo contra funcionários e passageiros da Latam

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Coletivo Efigenias

No final de  2015 um grupo de jovens negros promoveu uma intervenção artística em um voo de uma grande empresa aérea brasileira. Motivo: o grupo relatou foi discriminados e hostilizados por pessoas que depois se descobriu serem funcionários na empresa.

O blog   Negro Belchior divulgou mais este caso de racismo na LATAM em dezembro do mesmo ano e relatou que entre as ofensas sofridas pelos jovens artistas os agressores disseram que “depois que começaram a vender passagens nas Casas Bahia, ficou foda andar de avião” e um deles disse: “Pede para trocar de lugar com a feinha aí”, referindo-se a uma das jovens pretas do grupo.

Sobre o fato, a empresa em questão, LATAM, disse em comunicado que  se sensibiliza com o ocorrido e esclarece que valoriza e respeita a diversidade entre as pessoas independentemente de idade, gênero, orientação sexual, religião e etnia. Será mesmo?


Uma rápida pesquisa na internet e encontramos várias reclamações, artigos e notícias sobre racismo relacionada a empresa LATAM. Apenas coincidências?




José Roberto dos Santos, ex-operador de cargas da companhia área  foi vítima de racismo em seu ambiente de trabalho na empresa.  Ele foi xingado racialmente por duas vezes por um funcionário da empresa. Como resultado, após a primeira sentença judicial do processo movido por Roberto, em maio de 2016 o profissional foi demitido, claramente por conta do processo. 


SAUDDAD

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Uma carta para o Prefeito Fernando Haddad



Estamos muito tristes com o resultado das eleições. O sonho de um projeto de cidade para as pessoas está suspenso (por enquanto), mas não podemos deixar de acreditar.


Estamos tristes, mas a luta continua. Uma carta de Cleide, mulher preta, trabalhadora para o Prefeito Fernando Haddad.


Carta aberta para o prefeito de São Paulo Fernando Haddad




São Paulo, 13 de outubro de 2016,


Eu votei no senhor em 2012 mesmo desconfiada e com muito medo votei no senhor, era a única opção viável no segundo turno naquela ocasião. Achei que seria um desastre, desculpe, mas o seu partido já estava com o filme muito queimado, desculpe novamente, mas isso é um fato o senhor sabe disso e nem discorda pelo que vi em muitas de suas entrevistas.

Mas veio a Lei do Artista de Rua, uma iniciativa corajosa e muito humana, o que mais temos em nossa cidade são artistas, eu e meu marido somos uns deles, somos gratos pela sua coragem porque não foi uma medida fácil.

Vieram as ciclovias, minha nossa! Que alegria ver as pessoas andando dignamente em suas bicicletas, com segurança e aconchego. Sinto orgulho delas e olha que eu nem sei andar de bicicleta.




Os corredores de ônibus e a reorganização dos itinerários, foi muito bom, na época eu reduzi 30 minutos da minha viagem e soube de gente que reduziu 1h ou mais, isso é qualidade de vida. Sei que muita coisa ainda precisa ser feita, claro, mas o seu governo teve atitudes muito humanas e isso eu reconheço.

O povo, prefeito Haddad, precisa muito de uma boa educação, somos passionais, acreditamos muito em tudo que passa na TV, não exercitamos nosso senso crítico, inclusive tem pessoas com alta escolaridade e cultura sendo enganadas pelo senso comum, imagina o povão “dois pastel e um chops”.

Ações como o programa de “Braços abertos”, a paulista aberta para o lazer aos finais de semana e a corajosa decisão de diminuir a velocidade nas marginais, nada fácil, pois algumas são medidas impopulares, como eu já disse o povo é passional e umbiguista te odeiam por tomar algumas dessas medidas e muitos te odeiam pelo simples fato de ser do “PT”.





O senhor é um homem moderno e de cabeça bem aberta, seria ótimo continuar contando com a sua presença, principalmente os artistas de rua porque sabemos que segurou um rojão treme-terra para manter essa lei e estamos temerosos, falo em nome de todos os artistas beneficiados, de que ela seja aniquilada na nova gestão. Podemos contar com o Senhor? Espero que sim. Prefeito Haddad agradeço pelas boas ações tomadas em seu governo e desejo que o senhor continue na luta e não esqueça que “Quem sabe faz a hora, não espera acontecer”.



Mui respeitosamente

Cleide Cruz


Outubro, 2016






:: Efigenias ::

SAUDADD

A farsa picaresca de Celso

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A história do dia em que “em nome da lei” e da audiência, o candidato a prefeito da cidade de São Paulo, Celso Russomano do partido PRB, humilhou trabalhadores para criar uma cena sensacionalista e grosseira e exibí-la em seu programa de televisão.










Em idos de 2005, o então Deputado Federal pelo PPB Celso Russomano apresentava um quadro no programa Dia Dia da Rede Bandeirantes. O plot da atração era a Defesa do Consumidor in loco, ou seja, em companhia do apresentador e paladino do Direito Consumerista, pessoas comuns alcançariam a justiça em conflitos nas relações de consumo.



No vídeo que nas últimas semanas vem bombando na internet, ressuscitado por contrários ao candidato do PRB à Prefeitura, vemos Celso Russomano de forma agressiva e autoritária oprimir trabalhadores de um supermercado para, segundo ele, fazer cumprir a lei. A trama começa quando o Repórter-Deputado (a dialética será explicada à frente) explica de forma didática que pela lei, o consumidor pode comprar produtos em unidades menores do que vendido no mercado varejista, ou seja, o estabelecimento seria obrigado a, por exemplo, abrir uma caixa e vender apenas uma única caixinha de fósforo para um cliente se ele assim desejasse.

A caixa que vemos no vídeo interagindo com o Russomano, dez anos depois me contou que aconteceu no fatídico dia:

"O Deputado Celso foi até o supermercado atender a reclamação de uma cliente. Eles chegaram de repente sem nenhuma explicação e sem pedir permissão foi colocando a câmera da minha cara e pedindo pra chamar o gerente da loja. Entrou passou uns trinta minutos fazendo a tal compra e depois mais uma hora no caixa discutindo comigo, meus colegas e até outros clientes da loja, até que uns dos diretores por telefone falou com ele e nos autorizou a passar as compras."

O supermercado em questão, o Dia, apesar de fazer parte do gigante varejista Carrefour, tem por característica ser um supermercado com apelo popular e mercados pequenos. A unidade onde tudo aconteceu fica na estrada da Barreira Grande, em um bairro chamado Jardim Colorado, zona leste de São Paulo. Lá trabalhava Cleide Cruz já havia um ano e meio em um ambiente exaustivo com salários muito baixos, como é a realidade da maior parte dos trabalhadores brasileiros.

"Chegou lá sem ao menos explicar o que estava acontecendo e foi exigindo que vendêssemos os produtos por unidade. Lembro de que a cliente fez uma reclamação direta com a encarregada da loja (um mês antes) e foi orientada a procurar o SAC do mercado. Ninguém tirou a razão dela, apenas explicamos que a loja nos impunha algumas normas e não poderíamos desobedecer."

Celso então passa a proferir ameaças e agressões verbais aos funcionários e floresce a dualidade Deputado-Repórter: segundo o relato de Cleide, Russomano não hesitou em dar uma carteirada para forçar sua figura autoritária: "Eu sou um deputado, vocês pensam que estão falando com quem?" disse aos trabalhadores, sob a luz quente dos refletores e o típico patrimonialismo usado para fins de entretenimento e proveito próprio. Sem considerar legislações e portarias referentes à segurança alimentícia e manutenção dos produtos, Celso segue incauto na missão de garantir o direito e rasgar o pacote de papel higiênico para comprar apenas um rolo.








Além do show grotesco do repórter Russomano que tratou funcionários de forma rude e agressiva, não podemos nos esquecer da responsabilidade do supermercado pelas condições de trabalho dos trabalhadores e por não atender corretamente a reclamação da cliente que já havia se queixado no supermercado à Gerente e foi mal tratada. Tudo isso poderia ter sido evitado com uma boa condução da queixa e respeito ao consumidor, mas acabou com uma câmera na cara de Cleide que assim como seus colegas não tinha nem cadeira para sentar, trabalhavam de pé e assim estava quando o Celso Russomano cruzou sua vida com um microfone na mão. E claro que entre o Deputado mediático e a empresa opressora, as piores consequências sobram sempre para o trabalhador:

"Minha relação com a empresa que já não era boa pela exploração que eles faziam só piorou. No mesmo dia do ocorrido eu tomei três advertências e três dias de suspensão (com desconto no meu salário) me transferiram para um loja que ficava em Ferraz de Vasconcelos mais longe e contra-mão da minha casa. Depois disso me transferiram mais três vezes e nas lojas em que fiquei fui maltratada por colegas que achavam que a minha presença ali era um perigo, achavam que o Celso Russomanno poderia aparecer lá e arrumar confusão pra eles. Comparavam a minha presença como uma doença altamente contagiosa. E toda essa bagunça fez com que eu fosse obrigada a pedir as contas pois não quiseram fazer um acordo, me forçaram a pedir as contas. Me senti péssima, senti culpa pelo que houve durante muito tempo e fui exposta de uma forma covarde e desrespeitosa. Sabe o que ganhei com tudo isso? Uma gastrite nervosa que parou de me incomodar a pouco tempo, mas ela sempre volta. Complicado viu!"


Diz Cleide que com a câmera desligada ou em imagens que foram editadas do vídeo que tem mais de 100 mil views, Celso Russomano chegou a mandar os trabalhadores calarem a boca, e que estava ali para ensiná-los a ser gente. Algumas clientes que foram defender Cleide também foram ofendidas

A injustiçada freguesa recorrente do mercado e que por uma falta de responsabilidade da empresa foi maltratada e pela avidez de Celso Russomano teve sua imagem usada para chamar atenção para o programa,  depois do terrível ocorrido continuou comprando no supermercado como antes, não houve uma verdadeira solução para o problema. Só que depois da farsa de Celso, os vizinhos passaram a tirar sarro do ocorrido e seu nome Leni foi substituído no bairro próximo a Vila Formosa por Miss Defesa do Consumidor. 

"Não julgo ela, ela teve e tem direito de reclamar, o sem noção foi ele."

Vejam o relato emocionante de Cleide da Cruz, uma trabalhadora brasileira humilhada e desrespeitada por aquele que quer ser Prefeito da cidade de São Paulo.







Ps. Eu me lembro bem da época quando vi este vídeo e anos depois no Facebook. Me surpreendi ao ver a Cleidoca, artista, super querida e da paz numa situação de tamanha humilhação. Obrigada pela oportunidade de contar sua história. Espero que agora sua voz alcance justiça.






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#LoloFigueiroanoCarnaval

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A saga da Paneleira Director's cut 



Existe whiteface?


Quem é Lolo?




Teatro é uma arma.Uma arma muito eficiente."

Augusto Boal


Heloísa Clarice Figueiroa dos Santos, paulistana da gema, e apesar dos pais não serem casados no papel (o avô de Lolo era militar e a mãe recebe a pensão destinada a filhas solteiras de militares), representa a família tradicional brasileira. Entre leituras de Brecht e Augusto Boal e seu Teatro do Oprimido, surgiu a ideia de Lolo a Paneleira, personagem satírico criado para o carnaval de 2016. Os detalhes da sua caracterização contam mais a sua história: a bolsa Channel para lembrar os dias em Paris (lugar muito superior a São Paulo), a camiseta vintage da seleção herdada do avô militar e a panela na mão como símbolo de sua indignação. Lolo está indignada com tudo o que esta aí, mas não sabe exatamente o que é esse tudo. E bate panela na janela para mudar nosso país.




Lolo não é racista, mas acha que lugar de moreninho não é na universidade ao seu lado pois cada um deve ficar no seu devido lugar. As flores no cabelo mostram um certo clima hippie chic, afinal ela quer paz e amor com o apoio do aparelho policial do estado para defender seu patrimônio e os seus. 

O Personagem

Trata-se de um personagem complexo, dada as incongruências nas esferas subjetiva, social e política do personagem esférico  justamente por ser tão psicologicamente completo quanto as pessoas reais, mas ela não e real. A composição é baseada em um tipo que vemos todos os dias na internet, no trabalho, na TV. Sabemos o que ela pensa e o que vai dizer, como se veste e as baladas que frequenta. A Lolo é um personagem do cotidiano, especialmente em São Paulo. Todos conhecemos uma Lolo.

A questão é que, uma vez lançado na internet,  em manobra de percepção e identificação simbólica  do público, o pensamento coletivo dos espectadores mudou o personagem. A complexa Lolo foi, digamos, reduzida à Branca Maluca. 

E isso é bom. 


No começo foi interessante, as pessoas entendiam o personagem e continuavam sua história. Um personagem esférico tende a evoluir ao longo de sua existência e foi o que aconteceu. Os primeiros compartilhamentos falavam de como Lolo estava cansada de morar no Brasil e já estava de mala e cuia para Miami, como Lolo não era racista por ter um amigo preto e que seu objetivo era tirar uma selfie com a policia para demonstrar seu apoio a quem garante a ordem.

O conteúdo e a riqueza da interação criativa das pessoas fez Lolo rapidamente se transformar de forma satírica em uma mensagem política e social. A problemática surgiu quando Lolo foi erroneamente comparada com a já conhecida Nega Maluca e se tornado seu oposto, a Branca Maluca.

A fatídica fantasia de Nega Maluca, que alguns de vocês que leem esse texto já utilizaram, até mesmo neste carnaval, é apenas racista e preconceituosa. Nada mais e por isso não deve ser usada. 
A Nega Maluca é considerada cômica somente porque é negra, por seu cabelo crespo e porque é uma empregada doméstica como são nossas mães, nossas irmãs, nós mesmas. Uma mulher preta é engraçada apenas por ser preta e isso é racismo. Já Lolo é muito mais que uma cara branca, ela é um pensamento que nos assombra, uma palavra que nos ofende, um movimento que nos oprime por sermos pretos, pobres, moreninhos, empregadas, gordos, necessitados, nordestinos. A graça que vemos na Lolo não esta apenas na cor, mas porque, na realidade, longe dos dias de confete e serpentina onde os papéis se invertem, Lolos nos oprimem com seu dinheiro, suas opiniões e sua indignação seletiva. Mas neste carnaval, pudemos rir dela.


Não existe whiteface.


Não existe whiteface. Não existe movimento artístico grotesco degenerativo, em paralelo ao blackface,  que sirva apenas para fazer rir a partir da humilhação e degeneração de pessoas brancas. Não existe escola teatral ou artifício cômico que se utilize desse artificio grosseiro para discriminar o branco e sua cultura. Brancos não sofrem racismo. Brancos não sofrem preconceito por serem brancos.

Naturalmente a comparação cresceu conforme as imagens foram compartilhadas. Muitos riram e gozaram do fato de, pelo menos desta vez, a risada era deles, dos que sempre são o motivo da piada. Chegou o dia, algo esta mudando! disseram. Com prazer vi pessoas se deleitarem com a oportunidade única de rir dos símbolos do opressor de forma pungente. Dar o troco naqueles nos humilham diariamente e que certamente no carnaval se fantasiam de mulher negra e acham engraçado.  Óbvio que Lolo Figueiroa se vestiu de nega maluca em algum carnaval. Alguém tem alguma dúvida?


Whiteface seria pouco


Seria muito fácil simplesmente me utilizar dos artifícios grotescos e fazer algo que poderíamos chamar de whiteface, a caracterizacao grotesca do branco, seus trejeitos e cultura. Mas seria pouco, seria baixo. Seria limitar um personagem em sua profundidade e atribuir apenas o caráter grotesco degenerativo. O problema da Lolo vai muito além de ser branca, é seu carácter, sua ideologia e  sua posição social. Lolo tem uma empregada preta que bate a panela quando ela se sente indignada e para ela esse é a ordem das coisas.

Esse tipo de personagem, o burguês canastrão e  preconceituoso é popular na cultura brasileira. Em todas as novelas e programas de humor tem um rico mau, ganancioso, sem escrúpulos, preconceituoso, que usa de sua posição social para explorar aqueles que não pertencem a seu grupo.  Tem a patricinha sem noção que vai levando a vida em ritmo de sinhazinha com sua empregada de confiança, seu motorista e sua ojeriza ao pobre. E são todos brancos, ou ninguém percebeu? O rico estereotipado na TV, as Lolos das novelas são sempre brancas, mas parece que as pessoas não se veem ou não se importam que outros brancos representem seus defeitos e esteriótipos, mas se uma mulher preta se torna protagonista desse debate e interpreta o personagem, bem, aí é racismo.



Para quem tem uma boa posição social,falar de comida é coisa baixa.É compreensível:eles já comeram.Bertold Brecht

Mas, estamos falando da internet, lar do ódio, do escárnio, da discussão infinita, dos crimes da palavra. "Racismo inverso", gritaram,"Então quer dizer que nega maluca não pode e branca maluca pode?",  "Petralha", etc...  Alguns se ofenderam e gritaram as palavras que já conhecemos e querem ter  assegurado seu direito de gozar de seus privilégios sem serem ridicularizados com o riso do outro. Com eles não!  Já temos as negas malucas pra isso, oras.


Enquanto isso, hoje é segunda e Lolo já cumpriu se papel. Muitos riram, se divertiram mas muitos também pensaram que o mundo poderia ser diferente. Guardo minha fantasia, mas fico pensando, e se no próximo ano, sairmos juntos num bloco de paneleiros, gritando palavras de ordem como "viva a democracia, intervenção militar já", rindo de nossas histórias sobre baladas top, sonhos de fugir do Brasil, com nossas empregadas que são quase da família, o que poderia acontecer? O que vai acontecer com Lolo Figueiroa, só o carnaval e o tempo dirá...







Luanna Teofillo é Mestre pelo Universidade Sorbonne Nouvelle em Paria, cujo tema de Mémoire foi "O Homem e os Negros - Da alteridade e racismo na linguagem".  Há mais de 8 anos publica o blog Efigenias sobre linguística, humor, mundo pop e o racismo cotidiano. Quem sabe um dia ela será também uma atriz?



Ps. Este artigo fui publicado em diversos meios de comunicação entre eles: Revista Fórum, Pragmatismo Político e Brasil Post durante o Carnaval de 2016.




::  Efigenias ::

Whiteface é pouco




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