A potência de Sabrina Fidalgo contra o ódio branco

Manifestação do ódio branco diante a potência de Sabrina Fidalgo

Foto: Hypeness


Por Paulo Mileno



Recentemente um stalker fez diversos comentários racistas no canal  de YouTube da produtora cinematográfica Fidalgo Produções.


Sabrina Fidalgo é cineasta, roteirista, atriz, produtora e fundadora da produtora que carrega o sobrenome de sua família. Seus pais, Ubirajara Fidalgo e Alzira Fidalgo, um casal negro que formou uma parceria de sucesso afetivo e no ramo do entretenimento, tendo fundado o Teatro Profissional do Negro, apoiado a fundação do Instituto de Pesquisa e Cultura Negra, entre outros empreendimentos no mundo da cultura e da luta racial.


Um perfil denominado  ‘Lupo Smith’’ questionou a origem do dinheiro de Sabrina, porque, segundo ele, os filmes dela “não dão dinheiro algum”. Ele se impressionou com as viagens dela à Europa, sua fluência em outros idiomas, por ter estudado nas melhores escolas e ter feito cursos fora do Brasil.


‘Smith’ pesquisou sobre a vida de Sabrina Fidalgo e descobriu que ela faz parte do 1% mais rico da nação brasileira. Para ele, deve ser inacreditável. Sua audácia traduz bem “a perpetuação do imaginário escravocrata com pretos presos ao pé da mesa da fazenda colonial comendo as sobras dos jantares”, conforme as próprias palavras de Fidalgo.


“Preto no Brasil não pode ter dinheiro e se for mulher, menos ainda”. Esse foi o entendimento de Sabrina diante desse ataque racista. Ataque racista e covarde porque o fake ‘Lupo Smith’, deletou sua conta no Youtube.


A cineasta prestou queixa crime contra “Lupo Smith” na delegacia de Crimes de Repressão a Crimes de Informática no Rio de Janeiro. Xangô, a divindade da Justiça, se encontra no Orí (cabeça) de Sabrina e ela é filha de Ogum, o Deus da Guerra, e Iansã, a deusa das tempestades. Os Deuses Negros vão abençoar essa vitória!

Se buscássemos uma solução para acabar com discursos de ódio dessa natureza, uma revolução social poderia nos transformar numa sociedade igualitária e sem discriminação. Será?


Aos olhos da sociedade é normal ver um mendigo negro. Entretanto, ver um negro bem sucedido, parece ser uma afronta. A supremacia branca precisa atingir o negro que subverteu o status quo. 


Ninguém confunde nenhum ator branco com garçom em nobre restaurante na Barra da Tijuca. Mas o ator Luis Miranda é confundido. A Polícia Federal não expulsa  do avião na Bahia nenhum casal branco famoso. Mas Érico Brás e Kenia Maria são expulsos. Haveria alguma cor - relação?


Esse mesmo ódio a negros bem sucedidos é a motivação racista da mídia do Rio de Janeiro que tenta a todo o momento associar o ex jogador de futebol Adriano, O Imperador ao tráfico de drogas ou associação ao tráfico. A pressão capitalista por vendas e audiência atropela valores éticos e morais ensinados nos cursos de  jornalismo universitário.



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Recentemente, James Harden foi parado e revistado pela polícia de Paris. Todos os policiais eram brancos. Harden estava andando na Avenue Montaigne, uma das principais e mais luxuosas avenidas da cidade, tendo lojas como Louis Vuitton, Dior, Ralph Lauren e joalherias como a Bulgari. Sua estadia na França foi para assistir o desfile da marca Balenciaga na semana de moda de Paris ao lado de celebridades como Lewis Hamilton, Lil Baby e Kanye West.


Qual seria o motivo de suspeita policial diante de um famoso e milionário jogador de Basquete? Lebron Jame, a maior estrela da NBA, teve sua mansão pichada com insultos raciais. O jogador se pronunciou no jornal The Guardian:


"Não importa quanto dinheiro você tenha, não importa quão famoso você é, não importa quantos pessoas admiram você. (...) Racismo vai sempre ser uma parte do mundo, uma parte da América. Ódio na América, especialmente para negros norte americanos, é manifestado todo dia”


Discutir o racismo e suas motivações racistas acaba sendo um assunto sem fim, porque ele nunca vai acabar. É uma ideologia? Uma filosofia? Uma estrutura? Um fenômeno? Uma consciência histórica?


Ninguém ainda encontrou a resposta.




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Paulo Mileno é um ator, escritor, pesquisador, conselheiro editorial da Revista África e Africanidades e co-autor do livro The Routledge Handbook on Africana Criminologies (2021) publicado pela Routledge International Handbooks. Mileno colabora para diversos jornais nacionais e internacionais, como Jornal do Brasil, Brasil de Fato, Observatório da Imprensa,  Black History Month (Inglaterra), Black Star News (New York - Estados Unidos), San Francisco BayView National Black Newspaper (San Francisco  - Estados Unidos), Ufahamu: A Journal of African Studies da Universidade da Califórnia, UCLA (Los Angeles – Estados Unidos) e Africa Business (Cidade do Cabo - África do Sul). Contato: pmileno@gmail.com