Meu marido tem dois emprego

O legado da dupla jornada de trabalho para o fortalecimento econômico das classes médias pretas


Por Luanna Teofillo

Todo Mundo Odeia o Chris é uma das séries mais bem sucedidas da tevê no brasil e nos Estados Unidos. Há anos no ar diariamente e presente nos memes da internet, seus personagens e bordões ficaram famosos e foram assimilados pelo público.

A série conta a história de um menino preto no Brooklyn dos anos 70 e foi baseada na vida e obra do comediante Chris Rock. A família é formada pelo pai Julius, a mãe Rochelle e os irmãos Drew e Tonya. E, diferente da maioria das famílias do bairro, na época um dos cantos mais pobres de Nova York, Chris tinha um pai e ele possuía dois empregos. E isso fez toda a diferença.

A importância do Casamento Afrocentrado em Todo Mundo Odeia o Chris

Mas e o que isso significa para uma família preta?


Privados do status legal de acumulação de bens por séculos, a maior herança e o legado econômico deixado pelos nossos antepassados é a oportunidade de criar riqueza por meio do trabalho.

Diferente de outros grupos sociais que contaram com o apoio do Estado, como imigrantes europeus e japoneses que receberam cotas de educação e terra e incentivos para se estabelecerem no país e que puderam deixar herança para as gerações seguintes, após a abolição do escravismo como modelo de exploração de mão de obra, a população preta foi impedida de acumular bens e adquirir educação por quase metade do período moderno do país.

Além das práticas cotidianas de discriminação e preconceito contra pessoas pretas na sociedade e mercado de trabalho, houve limitações estruturais de desenvolvimento econômico como leis que impediam pretos de frequentar a escola e adquirir propriedade que impactam na questão econômica de metade da população do país. A única coisa que não nos foi impedido foi trabalhar, ainda que basicamente em posições subalternas.

Por isso é tão comum conhecer uma médica preta que além de praticar a medicina, tem uma microempresa de comida onde ela atende aos finais de semana quando não está no consultório. Ou ainda um um jovem preto que faz estágio em uma agência de publicidade e trabalha no iFood nos finais de semana, assim como um pai como o Julius que além de ter dois empregos e um outro imóvel de aluguel, aproveita todas as oportunidades que tem para ganhar e economizar dinheiro. E foi deste ambiente sócio-econômico que cresceu um dos artistas pretos mais ricos e bem sucedidos do showbusiness americano.

Apesar do processo exploratório e econômico da população de origem africana ter sido diferente nos Estados Unidos, e além de medidas de reparação econômica, a base da acumulação de bens por famílias pretas também por lá começa primeiro no trabalho e depois na acumulação de bens. Por isso fazemos a dupla jornada e temos os dois empregos.

Além da minha jornada como trabalhadora da tecnologia em uma grande empresa, eu dedico meu tempo ao desenvolvimento da startup Doorbell Ventures e ao crescimento do Painel BAP. É uma jornada múltipla entre a vida operária e a realidade do afroempreendedor. Quando uma vez um jovem branco e rico dono de uma startup me disse que não acreditaria em alguém que trabalha em dois lugares porque pra ele “quem faz muito na verdade não faz nada”, ele não conseguia compreender que a maior oportunidade que tenho para transformar a realidade da minha família é poder trabalhar em dois turnos. E são nestes momentos eu me lembro que Oprah Winfrey, a mulher preta mais rica da história da humanidade, teve um emprego por 25 anos para conseguir desenvolver seu próprio negócio.

É muito comum em entrevistas de emprego me perguntam: mas como você consegue trabalhar em dois lugares? A síntese desta distinção vem na frase: será que você vai dar conta? Esta é a que eu chamo de pergunta da classe social, é como se quisessem dizer: por que sua vida não é igual a nossa?

Por que será?