Como um teste de DNA mudou minha vida

Revelar origens étnicas, esta é a proposta do exame de DNA da empresa israelense My Heritage. Eu não poderia imaginar o que estava por vir.




Em janeiro fui sorteada em uma promoção da página Todos Negros do Mundo e ganhei um kit para fazer um teste de DNA que prometia revelar minhas origens étnicas. Era algo que eu já tinha interesse em fazer, mas tinha deixado um pouco fora do meu radar de prioridades.

Recebi uma caixa da empresa My Heritage com uma embalagem com dois cotonetes que deveriam ser passados na parte interior da bochecha, e enviada para o laboratório para análise. Enquanto esperava o resultado, me cadastrei no site da empresa para fazer parte do banco de dados mundial e quem sabe conhecer mais sobre minhas origens e até encontrar pessoas com os mesmos traços genéticos que eu. A empresa diz que tem mais de 100 milhões de usuários no mundo inteiro e o mapeamento de um terço da humanidade. São bilhões de perfis mapeados no planeta inteiro. Este exame revela traços genéticos de grupos étnicos relacionados com regiões geográficas e seria uma forma de identificar em quais regiões demográfica estavam meus antepassados antes de chegarem ao Brasil. 


Descobrir origens étnicas pode trazer algumas surpresas e gerar muitas dúvidas e questões. O fato é que não é possível para nós afrodescendentes sabermos com precisão de onde vieram nossos familiares, mesmo assim é algo a ser conhecido e refletido, tanto pela carência natural de quem foi afastado de suas origens quanto por um senso de pertencimento a uma determinada cultura.


Por via das dúvidas, fiz uma pesquisa sobre este tipo de teste e sinceramente achava que não seria nada demais o resultado já que é apenas um indicativo e não determinante da origem étnica de uma pessoa, que é muito mais complexa quão complexas são as relações humanas e históricas entre povos e culturas. Muitos artigos escritos principalmente nos Estados Unidos e Inglaterra questionavam este tipo de mapeamento por se basear na mesma estrutura racialista de classificação humana que é a base da ideologia racista e equiparar o DNA a uma cultura ou povo. Muitos autores e autoras também contestam os planos obtusos por trás de se obter material genético da população. Que tipo de uso poderá ser dado a este tipo de informação? 

Apesar destas questões eu segui em frente e enviei as amostras pelo correio. A curiosidade de saber um pouco mais sobre a minha história e meus ancestrais e muito mais sobre mim mesma e minha família validava a minha exposição genética. Depois de algumas semanas o resultado chegou por email onde havia um link direto para o resultado. E eu cliquei.

O que eu achava que seria apenas uma informação foi uma catarse. Minha mente voou no tempo e eu dei a volta ao mundo, passei por cada um dos dias dos mais de mil anos de história que aqueles números significavam pra mim e minha origem: 56% Nigéria, 19% Quênia e o restante misturado entre América Central, África do Norte e Península Balcânica


Quem eram essas pessoas? Como chegaram aqui? O que aconteceu com cada uma delas? As perguntas surgiam na minha mente com a mesma velocidade que a certeza e o vazio de nunca poder saber com exatidão o que aconteceu. Mas também tive uma sensação ímpar que eu descrevo como PERTENCIMENTO. A minha vida que começava no agreste da Bahia e no norte de Minas Gerais de onde migraram meus pais há menos de 100 anos, agora começa há 5000 anos, na origem das primeiras culturas bantu do que hoje é chamado Nigéria e isso mudou tudo na minha vida.


A partir dali existia um chão, um caminho, uma história e um passado antes do escravismo, antes da maldade dos brancos, um lugar de origem. Meu coração pertenceu e o impacto de ser descendente de um povo foi arrebatadora. Com essa sensação vieram as novas possibilidades de aprendizado, um novo olhar cultural e sobre mim mesma. Um processo de aculturamento de uma africana em diáspora e sua origem era a força que eu precisava para seguir minha caminhada em honra dos meus ancestrais e cumprir a missão legada por eles.



E foi assim, tal qual o poeta e político martiniquês Aimé Cesaire, pai do conceito de “Negritude”, me declaro pertencente do povo Igbo e filha da Biafra.












“No final da manhã, esses países sem estrela, esses países, caminhos sem memória, esses ventos sem consolo. O que isso importa? nos diriam. Cantemos. Gritemos. Voz cheia, voz larga, você seria nosso bem, nosso apontar para a frente.” Aimé Césaire, em Cahier de retour au pays natal* Caderno do retorno ao país natal de 1983.


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