Manifesto do Samba Abstrato 2017 - Parte 3

Parte III - Neste carnaval ela não veio nua ou O Carnaval me deu tudo



CARNAVAL É DELÍRIO e neste ano, ela não estava nua. Estava linda, preta, embranquecida, sambava, trazia o incômodo e a problematização e sorria como em todos os anos, mas este ano ela não estava nua e tudo mudou.

 Painel BAP


A moral sexual e estética que afeta o corpo das mulheres PRETAS é alimentada pelo racismo e por uma indústria mediática que fetichiza os pretos como criadores de culturas e de corpos a serem apropriados e feitos produtos da nossa cultura protagonizada por eles. Usar a mulher preta, escondida e silenciada o resto do ano como símbolo lascivo do carnaval, o oximoro da liberdade da mulher e da incompatibilidade entre o feminismo branco da liberdade individual  e o mulherismo africana e a ideia de que nossos corpos pretos já foram mostrados e explorados. Pois não somos nós que viemos nuas dentro dos barcos, onde nos tocam, usavam, compravam, vendiam? Sera que a agenda da proteção do corpo da mulher preta é tão libertadora quanto a afirmação do direito de mostrar este corpo?

A Globeleza não está mais nua e mesmo sabendo que mais de 50 mil jovens pretos morrerão este ano, muitas injustiças vão acontecer, este anos ela não veio nua nós vencemos de novo. #nãopassarão

E assim segue a Revolução Humanista da Mulher Preta, e nos dizeres de Acquiles Mbembe e sua Crítica da Razão Negra que temos que reconhecer o enegrecimento do mundo em uma época de crepúsculo europeu e o substantivo negro para ele é compreendido como toda a humanidade subalterna, incluindo as hordas de operários mal remunerados, os refugiados, os que perderam tudo para o capitalismo, as mulheres trabalhadoras oprimidas. É para todos eles e todos nós que as PRETAS estão fazendo a revolução, para os condenados da terra. Assim o foi e assim o é, ontem e hoje, quando uma mulher preta vence, vencemos todos.

O Carnaval me deu tudo. Me deu a oportunidade de aprender que sou descendente de Faraós, que somos os filhos originais da terra requebrando nos samba-reggaes e axés originais da Bahia. Aprendi também a história do meu povo nos samba enredos, as lutas e vitórias dos personagens que não estavam nas salas de aulas, mas ali na avenida representados por uma princesa porta-bandeira e seu cavalheiro mestre sala, preta como eu no palco da avenida.

O que o que o carnaval me deu, nem 30 anos sentadas numa sala de aula foram capazes. E mesmo no inferno cinza do liberalismo triunfalista, nem que eu desse sete voltas ao redor da árvore do esquecimento, eu deixaria de viver louvar, proteger e viver o Carnaval.


"Não fui que fiz o rap, o rap foi que me fez" - Criolo




:: Efigenias ::


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Referências:

(1) A motivação afetiva desde trabalho é a dor e a tristeza que vêm com a injustiça. E do medo e da coragem que nasce do medo e da força que vem da adversidade e do amor dos meus. Não tem mais volta. Nunca teve.

(2) Promiscuidade no sentido francês de Promiscuité, uma aproximação forçada que degenera a relação entre as pessoas.

(3) Pedagogia do Oprimido, Paulo Freire. Editora Paz e Terra - 60º edição. Página 218 e seguintes.


(4) A ralé brasileira – Quem é e como vive, Jessé Souza, André Grillo et AL. (colaboradores), Coleção: Humanitas 2009.

(4.1) "O mito de que as elites dominadoras, “no reconhecimento de seus deveres”, são as promotoras do povo devendo este, num gesto de gratidão, aceitar sua palavra e conformar-se com ela. O mito de que a rebelião do povo é um pecado contra deus. O mito de que a propriedade privada, com fundamento do desenvolvimento da pessoa humana, desde, porém, que pessoas humanas sejam apenas os opressores. O mito da operosidade dos opressores e o da preguiça e desonestidade dos oprimidos. O mito da inferioridade ontológica destes e da superioridade daqueles. Todos estes mitos e mais outros que o leitor poderá acrescentar, cuja introjeção pelas massas populares oprimidas é básica para a sua conquista, são levados a elas pela propagando bem organizada, pelos slogans, cujos veículos são sempre chamados meios de comunicação com as massas. Como se o depósito deste conteúdo alienante nelas fosse realmente comunicação." Pedagogia do Oprimido, Paulo Freire. Editora Paz e Terra - 60º edicação. Página 218 e seguintes.


(5) Trecho retirado da pela Les Nègres de Jean Genet, Collection Folio - página 15: “Esta peça, eu repito, foi escrita por um branco e é destinada a um publico de brancos. Mas se de forma improvável ela for encenada para um público de pretos, é necessário que a cada apresentação um branco seja convidado - homem ou mulher. o organizador do espetáculo era receber esse branco solenemente, o fara se vestir de traje de cerimonia e le conduzirá a seu lugar, de preferencia no centro na primeira fileiras de cadeiras da orquestra. nós apresentaremos para ele. sobre este branco simbólico um projetos será lançado sobre ele durante todo o espetáculo. E se nenhum branco aceitar essa representação nos distribuiremos ao público preto na entrada da sala mascaras de brancos e se os pretos recusarem as mascaras, utilizaremos um manequim."

(6) Referência: preppy, alt-right, aristocrata, burguês, socialite, paneleiro, coxinha, rico

(7) Ntando Cele, nascida na cidade de Durban, na província de KwaZulu-Natal, na África do Sul, aborda e enfrenta estereótipos racistas em Black Off. Na primeira parte do espetáculo, a performer e atriz assume o seu alter ego intitulado Bianca White, uma comediante sul-africana, viajante do mundo e filantropa, que julga saber tudo sobre negros no mundo inteiro ainda quer ajudá-los a superar a sua “escuridão interior”. Na segunda parte, Ntando Cele lida com estereótipos de mulheres negras e tenta descobrir como o público a vê. Existe a possibilidade de mulheres negras serem “apenas” artistas ou elas sempre carregam o fardo da raça e do gênero em qualquer coisa que façam? O espetáculo se estrutura como uma mistura de comédia stand-up, concerto e performance.