Manifesto do Samba Abstrato 2017 - Parte 2

lindamarxs
Carnaval de 2017 (1)

Parte II
Cara de branco e os novos objetos


A peça Les Nègres de Jean Genat sendo encenada em Lyon, na França

“Cette pièce, je le répète, écrite part un Blanc, est destinée à un public de Blancs. Mais si, par improbable, elle était jouée un soir devant un public de Noirs, il faudrait qu’à chaque representaqtion un Blanc fût inveité – mâle ou femelle.L’organisateur du ?spetacle ira le recevoir sonlennellement, le fera habiller d’un costume de cérémionie et le conduita à as place, de préférence au centre de la première rangée des fauteils d’orchestre. On jouera pour lui. Sur ce Blanc symbolique un projecteur sera dirigé durant tout le spetacle. Et si aucun Blanc n’acceptait cette représentation? Qu’on distribui au public noir à l’entrée de la salle des masques de Blancs. Et si les Noirs refusent les masques qu on utilize un mannequin” (5)

Jovens pretos com perucas loiras muito pó-de-arroz na cara, simulando subornos, criando farsas e zombando da elite branca e da sua semântica. São pretos, mestiços, brasileiros caracterizados de forma exagerada representando a elite brasileira no Baile da Lolo em um quilombo urbano em São Paulo.




Coletivo do Samba Abstrato - Baile da Lolo - foto: Caroline Nocetti

No Rio de Janeiro, o Bloco das Brancas Desequilibras vem para o carnaval com fantasias bem conhecidas de todos os pretos brasileiros: supremacia branca, musa da sororidade, leite com pera, paneleira, branca de turbante, entre outras.

Em comum os dois carnavais utilizam a estética chamada de whiteface que é caracterizar-se como pessoas brancas em seus papéis sociais (6). Pode ser através das roupas, trejeitos ou a caracterização e maquiagem branca, mas PRINCIPALMENTE PELO O QUE PENSAM, FALAM E FAZEM OS BRANCOS, não apenas por serem brancos, entende? E isso faz toda a diferença.

Vamos aos fatos relativos ao assunto deste texto. É carnaval e surge o impasse: no momento onde a apropriação cultural é tema em alta como é possível validar a representação de “brancos” por pretos? “Se não pode nega maluca, por que branca maluca é aceitável? “ gritou uma branca-de-turbante-desconstruidona-do-somos-todos-iguais.

É preciso ser dialógico para confrontar toda a manipulação das falsas simetrias que empesteiam a internet, a academia e a mentalidade geral. Para começar, nem é preciso falar que sendo o racismo um sistema de poder, pretos não tem condições de oprimir brancos de forma social ou estrutural, logo a hipótese acadêmica da utilização pelo oprimido das armas do opressor ou qualquer ranço de ideia tresloucada de racismo reverso está descartada.

O devaneio de que estimular esse tipo de expressão artística e política poderiam trazer como consequência o aumento do racismo (argumentum ad consequenatiam) é algo sempre dito por pessoas que geralmente começa seus discursos com ("eu tenho medo", "pode ser perigoso", "eu acho legal mas o problema"). Para estes, digo que seus desejos pessoais nem sempre se tornarão realidade e que se acostumem com isso. Seguimos.

Whiteface is generally criticism, whileblack face is degradation


O whiteface é usado como ferramenta crítica e estética para fazer o debate social. No teatro, Jean Genet em sua obra de 1958 Les Nègres utilizou o mecanismo do whiteface. Nas artes contemporâneas, a artista Renata Felinto em seu White face with Blonde hair de 2012 traz o whiteface como elemento estruturante da performance assim como a Diretora e Performer Ntando Cele em seu projeto Black Off (7) que será apresentado em março na (polêmica?) Mostra Internaciona de Teatro. (8)


Ntendo Cele - Black Off


O whiteface é também um artifício da comédia-crítica, como já fizeram o gênio Dave Chapelle na TV, The Waynes Brothers no cinema, e até Snoop Dog na música criou o personagem Todd. Note que no whiteface, a representação é a mais fiel possível não se utilizando dos exageros grotescos e focando mais no papel socio-econômico desses personagens e o impacto de suas existências na vida dos outros que não são eles.




Estas novas tradições ou tradições continuadas e revividas de certa maneira cumprem a experiência histórica de romper com a aderência ao opressor e torná-lo objeto, reconhecendo-se assim sua contradição antagônica e demonstrando a ação antidialógica que implica que um sujeito conquistando o outro o transforme em quase coisa.

O dilema da falsa simetria e o samba que vai até o amanhecer‬



Por que quando somos zoadas e desumanizadas como negas malucas vocês não vieram nos defender e dizer que somos todos iguais? Somos signos criados pelos brancos para que nossa negritude possa ser mercantilizada porque são vocês que determinam quem somos, o que queremos e podermos fazer.

E quando se sabe tão pouco, bem disse Jesse de Souza, sobre assuntos tão complexos, não só não se admite que não se sabe como tenta-se passar a impressão de que se sabe muito e seguindo a tradição de se calar qualquer voz preta em protesto, apenas o que vocês querem é contemplado e para nós nos resta o papel de coadjuvantes da nossa própria história contada por vocês.

Estas mesmas pessoas que despejam seu não-saber, o não conhecimento criando falsas simetrias chegam com suas fontes e falácias do tipo, "turbantes foram inventados pelos persas, logo, geral (eles) podemos usar como e quando quiser" nos calam, tomam nosso turbante, nosso carnaval, nossa cultura e o sucesso dessa estratégia pode se medir a partir de quanto conseguem tirar dos diversos elementos sua característica de distinção cultural do povo preto.


Carnaval na Guyana Francesa


A falsa simetria ou falsa analogia que nasce entre nega maluca X branca maluca é um exemplo dessa despegamento à construção de um debate realista e transformador. Enquanto a primeira é apenas degradante e grotesca degenerativa, a ideia de uma personagem com o universo de Lolo Figueira, por exemplo, demonstra uma complexidade da construção semântica que permite que várias camadas de debate, humor, sátira, crítica. Diante dos exemplos de personagens complexos motivados como os demonstrados acima, o ponto de virada é onde privilegio de ser quem se é e decidir por ter um local e o objeto de de fala bate de frente com opiniões montadas no privilégio branco de sempre ter razão.


Porque o branco sempre foi objeto de outros brancos, o branco no sentido social do privilégio, o que oprime, o que corrompe. Em filmes, novelas, na cultura em geral o grande vilão tem os olhos azuis. Mas como não se reconhecem como grupo, o choque racial de escolhas estéticas como whiteface ou mesmo linguísticas ao usar a palavra branco, mostrou aos brancos o que eles nunca havia se visto: como objeto da piada dos outros.


Dave Chapelle


Existe whiteface (9) mas não é o que você pensa porque brancos nunca foram limitados de serem e existirem socialmente, não tiverem seus hábitos e costumes questionados e apropriados. E a rigor, representar o branco como fútil, corrupto e alienado não é tarefa únicas dos pretos em suas novas estéticas. Utilizando o whiteface, não se busca desumanizar os brancos ou criar algo que remotamente seja chamado racismo reverso (10) Nenhum direito foi negado ou retirado dos brancos porque algum preto colocou uma peruca loira. Diferente da invocação racista de tradição do sarro contra as mulheres pretas apenas por serem pretas, por serem o grupo mais vulnerável da sociedade, o que ganha menos, o que é menos representado, usar o blackface é a perpetuação do racismo estrutural e da apropriação cultural feitos pelo privilégio branco que pode se servir de expressões culturais pretas e seguir um projeto colonialista da noção de negritude e para que ou quem servem os pretos.



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