Samba do Marcos

O proletariado das artes e a luta pelo direito


Marco Mattoli, companheiro de luta e líder do Clube do Balanço, lendário grupo de samba-rock paulistano,  me convidou para escrever um artigo sobre seu disco “Samba do Marcos”. Na verdade, ele não me convidou. Quando me contou que iria fazer um disco de sambas autorais homenageando o samba de São Paulo, prontamente me ofereci para registrar o momento e escrever sobre os sambas do Marco.



Eu já havia participado da gravação do teaser do lançamento do álbum, onde Marco Mattoli assumiu a persona satírica “Marcos” e no centro de São Paulo e se transformou em Homem-Placa para vender seus sambas no varejo para os trabalhadores da megalópole. Marco ao encarnar Marcos, usou como estética a luta do trabalhador, a objetificação do trabalho do homem e a dificuldade do proletariado das artes de se manter ao mesmo tempo que nunca se consumiu tantos produtos artísticos e de entretenimento. Eu me senti obrigada a fazer um manifesto político pós-Golpe de Estado, mas a verdade é que eu não sabia o que ainda estava por vir...



O samba e a indignação dos trabalhadores muda a sociedade


Em meados de setembro eu já havia tido o privilégio de ouvir o disco de sambas raros, autênticos e delicados, mas não conseguia escrever o texto. Estávamos em plena época de campanha eleitoral e não era qualquer eleição. Era a eleição onde estava em jogo a democracia e o progresso versus o atraso e a intolerância. Ainda bem que Marco havia lançado seu disco.

Eu ouvia “Viola” (Marco Mattoli, Renato Dias e T. Kaçula) enquanto acompanhava a campanha apreensiva. Palco de lutas do proletariado e do povo preto, São Paulo também é terra de samba de viola caipira e tambor. Não conseguia não pensar na luta da campineira Laudelina de Campos Melo, a primeira mulher a fundar um sindicato de empregadas domésticas e lutar para legalização da profissão e pelos direitos de todos os trabalhadores pretos em Campinas. O que diria Laudelina ao nos ver perdendo todos os direitos que ela dedicou a vida a defender? Por sorte eu poderia contar com o Samba do Marcos para não me deixar  esquecer de Laudelina, nem de “dona Dinda de Tata, andando junto dela o povo forte como ota”  para lutar por justiça e assim prosseguirmos pois “quando vejo este malungo pela estrada a caminhar” sei que a luta pelo direito e pela democracia continua.

De nada adiantou


Chegou outubro. Quando  Marco Mattoli há 20 anos escreveu a canção “Juras”, certamente jamais imaginaria que 20 anos depois estaríamos outra vez tendo que nos levantar pela democracia.  Achávamos que a conhecíamos bem, que já sabiamos manejar tranquilamente, mas muitos escolheram colocar a democracia na gaveta jurando que desta vez será diferente. Será?

“Ai eu pensei que nós somos apenas atores, marionetes de um agente maior, e que a cultura que os grandes do passado moldaram fazem a gente andar por caminhos que a gente decide bem menos do que a gente imagina.”


disse Marco em uma de suas falas, não se sabe se sobre a música ou a liberdade de direitos, mas é certo que ele já sabia do nosso papel insignificante ainda que decisivo no cenário político e no resto das nossa vidas.

"Não vai mais acontecer, aconteceu. E jurei, mas jurar não adiantou, aqui estou de novo como pôde acontecer", nos desesperamos diante da derrota nas urnas. Como pudemos nos iludir em algum momento que o jogo estava ganho? Perdemos de novo e dessa vez perdemos tudo.


"Só uma palavra" (Marco Mattoli, Gustavo Maguá, Marcos Frederico): "Agora acorda sonhador que o sol escondeu suas estrelas... Levanta que a vida começou enfim" e Marcos faz um chamado para o trabalhador a se resignar com seu destino de eterno lutador e seguir.

A maldita democracia


"Maldita" (Marco Mattoli, Roberta Gomes, Flávio Renegado) pode parecer um soneto parnasiano, ou mesmo um pancadão, como disse Marcos em um de seus discursos políticos, mas é claramente uma ode à classe trabalhadora oprimida em seu dia-a-dia brutalizado e o paradoxo da democracia. Trabalhadores das artes e das fábricas, dos computadores e dos carros, todos buscando a virtude democrática, coisa que neste país, nenhum de nós entende muito bem.

Mas e se não foi justamente através da democracia, "bela como um vidro que imita um cristal. Naturalmente falsa, maldita" que hoje tememos perder nossos direitos e conquistas democráticas?

O que eles nos roubam nós temos de sobra


Clique para ouvir o disco no Spotify


"Ainda tem" (Marco Mattoli, Ully Costa, Renato Dias) ... tem chão pra construir neste país, tem menino para estudar e quem vai fazer escola? Tem a saudade que sentimos daquele momento perfeito de esperança que já tivemos, mesmo sabendo que não vai mais acontecer. Mas ainda tem luta, ainda tem força, volta democracia ou fica que ainda tem esperança e resistência.

O ano está perto do fim, faltam alguns dia para 2019 e a partir de 1 de janeiro não sabemos ou sabemos  o que vai acontecer. Eu estava aflita, angustiada, mas hoje o Marco me mandou um video dele lá nas Minas Gerais e eu fiquei escrevendo, refletindo sobre o futuro que teremos que enfrentar e pensando que não importa o que aconteça, eu sempre poderei contar com Marco e seus sambas.



:: Efigenias ::

Aqui estou denovo como pôde acontecer