Segundo Sol e a Bahia Branca da Globo

A polêmicas novela que se prestou a retratar uma Salvador majoritariamente branca








Chega ao final a novela Segundo Sol, o folhetim das nove da Rede Globo escrita por  João  Emanuel Carvalho de Avenida Brasil e a Regra do Jogo. O enredo até que era interessante, a história de um cantor de axé tido por morto e as consequência do seu sucesso pós morte, e tinha tudo para cair no gosto do público. O cenário era Salvador e a indústria do axé e a cultura baiana dava o pano de fundo ao enredo. Mas algo estava errado e o público notou já nos  primeiros capítulos: diferente de Salvador, na novela a maioria dos personagens eram brancos.



Salvador é a cidade mais preta do Brasil com 79% do seus moradores afrodescendentes e vem se destacando como uma cidade de vanguarda andando na contramão do atraso que se instala no resto do Brasil em vários aspectos. Cada vez mais exigente e bem informado, o público preto soteropolitano não se viu  representado na novela e não gostou. 


A comunidade cobrou responsabilidade social da emissora, atores e diretores deram suas opiniões e o Ministério Público através de uma ação  impetrada pela União de Negros pela Igualdade (UNEGRO) contra a rede Globo, cobrou a  inclusão de atores pretos para garantir representatividade e cumprimento de leis relacionadas à diversidade em uma concessão de mídia pública.



A Globo se moveu, mas certamente não foi bem sucedida: colocou alguns personagens afrodescendentes na trama que não tiveram destaque ou literalmente desapareceram da história, como o núcleo do grande ator brasileiro João Acaiabe. Para completar, a emissora ainda ofendeu praticantes da Umbanda por uma representação estereotipada da religião que já é marginalizada. O pacote do racismo foi completo e nos resta a dúvida: o que explica a atuação penível da emissora ao retratar uma novela na Bahia e o que isso nos diz sobre a sociedade e as conquistas do movimento negro?




Apesar de ter ido bem na audiência, como se espera de retorno de um produto de alto 
investimento como é uma novela das nove, Segundo Sol não repetiu o êxito de suas 
antecessoras Outro Lado do Paraíso, de Walcyr Carrasco e A Força do Querer, de Gloria Perez, que além de terem maior audiência, ainda ganharam as redes sociais e o carinho do público. Recheada de polêmicas e clichês politicamente incorretos, nem as boas atuações do elenco salvaram e Segundo Sol passou batido. 




Dados mostram que Salvador é a praça onde a Globo tem maior dificuldade de se manter líder no Ibope, sendo um dos mercados mais problemáticos para a Globo em termos de audiência, tanto que a escolha de um folhetim baiano fez parte da estratégia da Globo para se reposicionar na Bahia diante do avanço da concorrente TV Record. Parece que não deu  muito certo.

No mês de agosto, o Painel BAP, primeiro painel de consumidores afrobrasileiro, realizou a pesquisa inédita Demandas SSA na cidade de Salvador. Sobre seus hábitos de mídia, apenas  18% dos baianos afirmaram assistir TV aberta e destes, 43% declararam assistir a novela Segundo Sol, sinalizando uma grande diminuição na relevância da TV como fonte de mídia e entretenimento, perdendo para a internet onde 31,7% consomem entretenimento.


Perguntados especificamente sobre a novela Segundo Sol, dos respondentes que participaram da pesquisa Demandas SSA, projeto inédito apresentado no Fórum de Diversidade organizadpela Prefeitura de Salvador, 63% afirmaram não se sentir representados pela novela, 33% citaram o sotaque e a fala e 27% declaram que a cor da pele dos atores não era fidedigna com a  cidade. E mesmo entre os 37% que afirmaram se sentir representados, apenas 8% marcaram a cor da pele como fator de identificação.


Nas últimas décadas a população preta vem encabeçando uma grande mudança social e de  quebra e mudança de paradigmas. Desde o empoderamento estético, passando pelo fenômeno do afroempreendedorismo, os afrodescendentes representam a camada mais engajada nas redes sociais, lideram debates progressistas impactando cada vez mais nas escolhas das empresas e suas consequências.


A rejeição por parte da população negra pode impactar no fracasso de um produto ou serviço.  A Globo que afirma ser uma empresa que valoriza a diversidade, além de não respeitar as leis, não demonstrou interesse em se adequar ao termo de conduta proposto pelo Ministério Público do Trabalho. Este episódio é mais uma amostra da força da comunidade e do movimento negro é uma prova da resistência das empresas para se adequarem às necessidades sociais e econômicas de inclusão. Pretos estão transformando a sociedade e este processo é irreversível, é preciso que a Globo e as outras emissoras aceitem o fato.

Enquanto isso, os Youtubers e canais pretos ganham mais visibilidade, os teatros lotados de 

público preto buscando se ver no palco e a Globo, parada no tempo com seu baianês branco. 



:: Efigenias ::

Barril


Clique aqui para ver o relatório completo da pesquisa Demandas SSA sobre consumo e representatividade em Salvador