9 lições que empresas devem aprender com as escolas de samba


As lições corporativas do Carnaval


Este texto faz parte do compêndio Manifesto do Samba Abstrato 2018
produzido no carnaval desde ano para debater racismo, cultura, economia,
apropriação social e muito samba abstrato.



Grazzi Brasil, puxado oficial da Escola de Samba Vai-Vai
Grazzi Brasil, puxado oficial da Escola de Samba Vai-Vai

No Egito antigo anualmente se celebrava a Festa das Lágrimas, em homenagem à deusa Ísis cujas lágrimas de lamento pela morte de seu esposo Osíris seriam responsáveis pelas cheias do rio Nilo e o período fértil da terra. Com música e dança se festejava a deusa com máscaras e adereços para valorizar a beleza do corpo e encenar a história da deusa (1). A adoração à Ísis se estendeu para todas as partes do mundo através da civilização greco-romana até que milênios depois chegou ao Brasil.

Foi dentro dos quilombos e irmandades pretas no início do século, principalmente na cidade do Rio de Janeiro, do cruzamento das cultura africanas ancestrais, dos entrudos portugueses, dos zé pereiras e cordões populares que surgem as primeiras associações pretas cujo intuito era festejar o carnaval de forma organizada oferecendo um espetáculo carnavalesco. Nasciam assim as Escolas de Samba (2) que além de grêmios recreativos e culturais, são empresas centenárias de origem preta que aperfeiçoaram o carnaval brasileiro e movimentam um dos maiores mercados de entretenimento do mundo. 

Bloco Afro Olodum homenageia o Egito
Participantes do Bloco Afro Olodum, outro modelo de empresa e organização cultural afrobrasileira,
 homenageando os antigos egípcios e ancestrais

Segundo pesquisa recente da Riotur, durante o carnaval são injetados mais de 3 bilhões de reais nos cofres da cidade do Rio de Janeiro. Boa parte desde dinheiro é gerado pelo turismo e carnaval realizado pelas escolas de samba. Por 364 dias do ano as fábricas de espetáculos carnavalescos trabalham para construir um enredo e entregar um desfile assistido por mais milhares de pessoas nos principais pólos de carnaval de Escola do Brasil (Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre, Vitória) além das milhões de pessoas que assistem a transmissão online no mundo inteiro.

A grandiosidade do carnaval já é de conhecimento de todos, mas quais os segredos por trás da organização das Escolas de Samba e um dos maiores espetáculos populares do mundo que podem ser aprendidos pelas organizações?



O que as Escolas de Samba tem a ensinar às empresas


1 - Diversidade real e inclusão


Integrantes da Gaviões da Fiel
Integrantes da Gaviões da Fiel

A Escola de Samba é um local aberto a todas as pessoas. Diferentes classes sociais compõe a escola e fazem do desfile um dia de celebração da cultura afro e brasileira. Diferentes das grandes empresas que há pouco se deram conta da necessidade de se incluir pessoas de diferentes perfis, origens e culturas nas organizações (e que pouco conseguem) para sua sobrevivência, as escolas de samba se comprovam como modelo de diversidade cultural em todos os carnavais.


2 - Valorizar o processo e motivar os colaboradores


Barracão de Escola de Samba
Barracão de Escola de Samba 

Antes de uma competição entre agremiação para decidir qual escola irá melhor apresentar seu desfile, gerenciar uma escola de samba é manter as pessoas interessadas, ativas e criativas e isto demanda tempo e trabalho. Antes de se preocupar com as notas dos jurados e métricas do desfile, é preciso organizar e motivar pessoas para darem seu tempo e conhecimento para criação do espetáculo, muitas vezes de forma voluntária e com todo coração. A lição que nos ensinam estas escolas é que o trabalho de construção da história da Escola e do pertencimento e significação dos colaboradores para darem o seu melhor é constante. A vitória é o processo de se colocar o carnaval na avenida, pois independente de alcançar os marcadores mais altos, no dia seguinte ao começa tudo de novo com a mesma motivação e este deve ser o espírito de qualquer equipe vencedora.


3 - Desenvolver talentos


Ala Mirim de Escola de Samba
Ala Mirim de Escola de Samba

Pessoas de todas as idades desfilam no carnaval que é uma incubadora de talentos desde a infância. Muitos músicos, artistas e personalidades famosas da cultura brasileira cresceram nos barracões das Escolas e encontraram nas quadras um local de desenvolvimento artístico e profissional. Para a criança preta e afrodescendente, o universo do samba-enredo é local de aprendizado e conexão ancestral negligenciada pelas escolas e mídia em geral, mas que compõem a base cultural da organização carnavalesca. Desenvolver as crianças, ou os colaboradores do futuro, garante o futuro das agremiações e a continuidade das empresas.


4 - Ter concorrentes, não rivais


As Escolas de Samba são co-irmãs, players do mesmo mercado em desenvolvimento
As Escolas de Samba são co-irmãs, players do mesmo mercado em desenvolvimento

Muitos pensam que a competição é o objetivo final do carnaval, mas na verdade entregar um lindo desfile é um fim em si mesmo. Há a rivalidade natural como em qualquer competição, mas existe o desenvolvimento e cooperação conjunta de muitas escolas e seus participantes. É comum ser torcedor de uma escola, participar do ensaio de outra e desfilar em um terceira. Quem ama o carnaval sabe da importância  do crescimento e sucesso das concorrentes para o pleno desenvolvimento do Carnaval. Competidores se enfrentam enquanto concorrentes concorrem de forma autônoma mas conjunta onde trabalho de todos é que faz do carnaval uma das grandes festas da cultura brasileira.  Esta tese de desenvolvimento social para o bem comum é também chamada de Ubuntu foi Business, que um modelo de gestão empresarial baseada no desenvolvimento comunitário e social. Saiba mais.


5 - Adaptar a entrega de acordo com os recursos disponíveis


A escola de Samba Mangueira trouxe como enredo: "Com dinheiro ou sem dinheiro, eu brinco"
A escola de Samba Mangueira trouxe como enredo: "Com dinheiro ou sem dinheiro, eu brinco"
uma crítica ao corte de verbas públicas pela prefeitura do Rio de Janeiro

São duas as grandes variáveis da produção de um desfile de samba-enredo: dinheiro e tempo. As escolas sentem duplo impacto financeiro em períodos de crise (3): a diminuição dos investimentos das empresas privadas e o corte dos investimentos públicos. O tempo de criação que envolve preparação, produção, desenvolvimento de negócios, marketing e comunicação, também varia de acordo com a data do desfile que pode acontecer no início ou no final do mês de fevereiro. Na prática isso pode significar até 20 dias a mais ou a menos de prazo e o impacto é grande. Conhecendo estas duas informações, as Diretorias (boards) e Carnavalescos se adaptam a estas variáveis e trabalham para entregar o melhor desfile possível de acordo com os recursos disponíveis e o prazo, e esta é uma grande lição de inteligência de gestão de negócios e economias. Imprevisto e acidentes podem acontecer, mas com crise ou sem crise, mas o show não pode parar. (4)

6 - Mulheres no comando


Presidenta da Mocidade Alegre e Alcione, homenageada pelo enredo da escola
Presidenta da Mocidade Alegre e Alcione, homenageada pelo enredo da escola

Pesquisa da organização Woman in Business - International Business Report de 2017 mostrou que no Brasil apenas 16% das empresas são lideradas por mulheres. Isso significa que é mais fácil vez uma presidenta de escola de samba comandar 5000 membros, entre integrantes, funcionários e artistas,  do que ver uma mulher gerenciando um negócio do mesmo porte. Das 34 maiores escolas do Carnaval de São Paulo, mais de 20% são presididas por mulher e 50% tem mulheres em sua diretoria, em cálculos aproximados. (5) Claro que a comparação é meramente ilustrativa mas não deixa de ser uma grande lição para empresas que pretendem se adequar ao tempo e valorizar o trabalho das mulheres nas organizações. 


7 - Se posicionar politicamente de forma autêntica


Ala dos Manifestoches na Escola Paraíso do Tuiuti faz crítica politico-social
Ala dos Manifestoches na Escola Paraíso do Tuiuti faz crítica politico-social (6)

Muitas empresas se calaram com medo de se comprometer e as poucas que se posicionam acabam enfiando os pés pelas mãos ao apoiarem causas sociais. Questões sociais e políticas são temas difíceis que deveriam ser levado com mais seriedade e menos marketing pelas empresas. Apoiar uma causa ou ajudar no empoderamento humano é algo importante que deveria fazer parte da missão de qualquer negócio, mas sem consistência com o que se prega denota oportunismo e falta de coerência. O carnaval sempre foi um lugar de protesto e posicionamento político sem perder a beleza e o brilho da festa. Aprender a combinar posicionamento e missão é importante para empresas que queiram construir a personalidade da sua marca de forma autêntica.


8 - Valorizar as raízes e celebrar os antepassados


Ala das Baianas do Salgueiro, Estandarte de Ouro 2018
Ala das Baianas do Salgueiro, Estandarte de Ouro 2018

Essa ligação com a base ancestral das culturas afro,  com conhecimento deixados pelos que vieram antes de nós ainda resta forte dentro das comunidades, apesar da invasão cultural e do samba abstrato que tanto insistem em se alastrar. Nas letras, nos fazeres artísticos, nos enredos, as Escolas de Samba continuam sendo locais de resistência e isso se mantém pelo respeito e devoção aos mais velhos. E esta conexão entre o velho e o novo que vemos tão naturalmente nas escolas, é um grande dilema para grandes empresas que muitas vezes desprezam a experiência dos mais velhos e formam uma nova geração de colaboradores desprendidos dos  princípios e valores fundamentais que criaram a empresa.


9 - Não importa o que aconteça, sempre entregar um grande desfile


Bateria da Beija Flor
Bateria da Beija Flor


Claro que diversas críticas cabem ao carnaval e a quem está no comando das escolas e controlado este mercado bilionário e se apropriando das empresas que são pretas na sua origem. Mas a verdade é que a genialidade carnavalesca que vemos hoje é fruto do trabalho e do desenvolvimento tecnológico e estético de pessoas pretas dos quilombos, favelas e periferias deste Brasil que consagraram pela sabedoria e talento de nossos ancestrais, em conjunto com a participação de outros eixos culturas, a excelência e o reconhecimento social deste grande evento.


Assim como as pequenas, médias e grandes empresas, as Escolas de Samba vêm a décadas enfrentando todo o modelo burocrático brasileiro, os preços altos, o tão famoso risco Brasil utilizando resistindo e crescendo a partir de  um modelo organização que se cada vez mais se aparenta ao managment das companhias, ainda tem muito da sabedoria das Tias dos Barracões a ser ensinada a CEOs e Presidentes.




:: Efigenias ::

Ubuntu for Business


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Referências:



(1) - SOUSA, Rainer Gonçalves. "O Carnaval na Antiguidade"; Brasil Escola. Disponível em <http://brasilescola.uol.com.br/historiag/o-carnaval-na-antiguidade.htm>.

(2) - "Escola de samba é um tipo de agremiação de cunho popular que se caracteriza pelo canto e dança do samba, quase sempre com intuito competitivo.[1] Sendo um tipo de associação originária da cidade do Rio de Janeiro, as escolas de samba se apresentam em espetáculos públicos,[1] em forma de cortejo, onde representam um enredo, ao som de um samba-enredo, acompanhado por uma bateria; seus componentes — que podem ser algumas centenas ou até milhares — usam fantasias alusivas ao tema proposto" - Disponível em https://pt.wikipedia.org/wiki/Escola_de_samba>

(3) Escolas de Samba - Ícone da Cultura e Crise de Identidade. Disponível em
https://www.nexojornal.com.br/explicado/2018/02/08/Escolas-de-samba-de-%C3%ADcone-da-cultura-%C3%A0-crise-de-identidade

(4) Após incêndio Tucuruvi refaz quase 100% das fantasias com ajuda de doações. Disponível em
https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/carnaval/2018/noticia/apos-incendio-tucuruvi-refaz-quase-100-das-fantasias-com-a-ajuda-de-doacoes.ghtml

(5) Tuiuti desceu o morro e calou os paneleiros
http://jornalempoderado.com.br/paraiso-do-tuiuti-desceu-o-morro-e-calou-os-paneleiros/