BlackRocks, uma startup refinando talentos

MULHERES NEGRAS EM MOVIMENTO

Por Cristiane Guterres 

Anote este nome, Maitê Lourenço. Você ouvirá falar muito sobre ela.

Maitê é uma mulher negra que está se destacando num universo majoritariamente branco e masculino, o universo de inovação e tecnologia. Nos espaços onde a tecnologia é protagonista dificilmente encontramos mulheres, ainda mais mulheres negras vindas da periferia. Aliás, a periferia não está nestes ambientes, ou melhor, não estava. Maitê é uma das brasileiras que está mudando este cenário.


 À frente do BlackRocks, uma aceleradora de startups dedicada a promover executivos e empreendedores negros, ela foi, no final de 2017, a vencedora na categoria diversidade do prêmio promovido pela revista Veja que reconheceu brasileiros de destaque no último ano. O trabalho que desenvolve está proporcionando o avanço de uma série de profissionais negros que dificilmente seriam visibilizados por modelos de negócios baseados em tecnologia.

Quando criou o logotipo do BlackRocks, Maitê quis simbolizar todo o brilhantismo e intelectualidade que normalmente não estão aliados à imagem do negro. Transformou um cabelo black power em diamante e resumiu em uma imagem o que faz na empresa: lapida talentos. Este é o trabalho do BlackRocks. Ao desenhar o projeto, a psicóloga e ativista tinha em mente abrir caminho para que a população negra pudesse acessar ambientes altamente inovadores. Desde de cedo, integrou grupos que atuam pela visibilidade e ascensão da população negra.



O interesse pelo universo maker começou depois que entrou num grupo de Whatsapp comandado por Michel Porcino, assessor da SP Negócios, empresa de economia mista criada pela Prefeitura de São Paulo para estimular o desenvolvimento econômico. Entrou no grupo interessada em conhecer mais sobre tecnologia para aprimorar o trabalho que desenvolvia na CIA de Currículos, empresa que fundou em 2010 com o intuito de auxiliar profissionais de diferentes áreas na elaboração de currículos.

O primeiro encontro de tecnologia do qual participou gerou um incômodo. Era uma das poucas negras no ambiente, quando não, em alguns eventos era a única. Este incômodo gerou na psicóloga uma ação. “Chegando nestes lugares eu via que eu contribuía. Quando eu falava sobre a minha perspectiva de mulher negra e fazia provocações sobre a questão racial ou sobre a questão de gênero isso contribuía para os projetos. Isso fazia com que os projetos chamassem mais atenção e se tornassem mais personalizados. Foi aí que conversei com o Michel Porcino que me deu todo o apoio para criar o que hoje é a BlackRocks”.

Do ponta pé inicial à primeira atividade organizada pelo BlackRocks foram pouco mais de um ano. “Eu tive que me capacitar para estar neste espaço, eu não entendia nada de startups”, explica. Um evento de mentoria em junho de 2017 marcou o início oficial das atividades do projeto. Maitê reuniu profissionais negros experts em diferentes áreas para orientar e incentivar empreendedores que estavam começando. O evento foi um sucesso. O segundo encontro foi a Arena Black Rocks em novembro do ano passado. Foram 10 horas de programação simultânea. Palestras, workshops, mostra de empreendedores. Conteúdo extremamente qualificado e mostra de projetos desenvolvidos nas periferias da cidade.


O BlackRocks tem como foco desenvolver e acelerar a participação da população negra no universo tecnológico. Mas nada impede que o público em geral participe das atividades do projeto. “É importante que os protagonistas sejam negros. Foi agregador o que aconteceu na Arena. A ideia foi visibilizar e valorizar o nosso povo, colocamos os negros no palco como protagonistas, mas abrimos a participação pro público em geral” explicou a psicóloga.

Dois anos depois de ter iniciado a BlackRocks, Maitê começa a receber o reconhecimento pela iniciativa talentosa. Além do Prêmio Veja-Se, ela ficou entre as três finalistas pelo prêmio Startup Awards 2017 na categoria impacto social e foi eleita uma das mulheres inspiradoras de 2017 pela organização social Think Olga. “Fiquei muito surpresa com o prêmio Veja-Se, não imaginava. Estou feliz porque a Veja está reconhecendo o racismo e oportunizando para que a gente discuta relações raciais”.

Quando subiu ao palco para agradecer ao prêmio que recebeu da revista, a única negra entre os indicados da premiação iniciou seu discurso de agradecimento lembrando que seus ancestrais não tiveram a oportunidade de ter seus talentos reconhecidos num espaço como aquele. Ela também citou uma frase recente da filósofa Angela Davis. “Quando a mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela, porque tudo é desestabilizado a partir da base da pirâmide social onde se encontram as mulheres negras. Com isso, muda-se a base do capitalismo“. 

Maitê é uma mulher em movimento e este movimento está gerando mudanças. Ainda pequenas quando considerarmos a sociedade em que vivemos, mas imensas quando pensamos nos negros que hoje estão criando e produzindo em espaços colaborativos altamente tecnológicos por que foram apoiados pelo BlackRocks.



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Cristiane Guterres
Jornalista, feminista, negra e protagonista de sua própria história. 


 E colaboradora do Efigenias