Branco pode usar turbante?

O papel do indivíduo branco na indústria da apropriação cultural


por Linda Marxs



Jéssica Davis escreveu um artigo no site da CNN sobre o processo de adoção de uma criança de Uganda pela sua família nos Estados Unidos. Ela e seu marido Adam são pais amorosos que gostariam de fazer a diferença na vida de pelo menos uma criança. Eles dispuseram de muito tempo, dinheiro e esforço para ter a oportunidade de criar uma menina de um país onde existem mais de 3 milhões de órfãos. Eles estavam felizes em receber e amar essa criança que teria sofrido toda sorte de abusos e privações em um orfanato e lhe dar um lar feliz com outros irmãos. Mas tudo mudou quando a menina aprendeu a falar inglês.




Ao contar sua sua vida pregressa, a menina revelou que tinha uma família, mãe e irmãos, que ía para escola e vivia uma vida feliz. A princípio Jéssica duvidou, achou que a menina estava fantasiando para lidar com os traumas. Mas ao investigar descobriu que a menina havia sigo roubada de sua família assim como outras crianças adotadas. Organizações internacionais se aproximam de famílias pobres em Uganda e outros países da Africa e Ásia oferecendo uma bolsa de estudos na América por dois anos. Os pais vendo uma oportunidade de uma vida melhor para a criança, entregam seus filhos para serem vendidos e adotados por famílias brancas nos Estados Unidos.

Da vontade bem intencionada de uma família branca em adotar uma criança preta, nasce um mercado que se move em torno desse desejo e destrói uma família para atender esta demanda por um produto e serviço. E assim funciona o mercado. O brancos querem, nós nos sacrificamos para eles terem.


Pode ou não pode?


Eu participo de diversos eventos sobre tecnologia, empreendedorismo, linguística computacional, racismo corporativo. Invariavelmente, independente do assunto que eu seja convidada a palestrar, no final do evento aparece uma pessoa branca para perguntar: branco pode usar turbante?

Eu poderia começar pela linguagem e questionar o uso do verbo "poder". "Pode ou não pode?, será esta é a questão? Porque o que define o que se pode ou não pode fazer na sociedade a priori é a lei, e debate não tem poder legislativo. Que poder tem a opinião de alguém se não existe  uma lei que proíba brancos usarem turbantes? Por que eles pedem nossa opinião? Desde quando branco respeita a opinião de preto?

É complexa essa ideia de pode ou não pode.

Uma vez ouvi uma conversa de mulheres brancas perguntando a uma jovem preta se podiam ou não usar turbante e incumbindo a ela o dever de legislar naquele espaço privado pela causa dos brancos. Segundo elas, os brancos querem usar "as coisas das outras culturas" e um indivíduo usar turbante não seria apropriação cultural, uma vez que apenas a indústria tem o poder de apropriar e explorar a cultura alheia. Será?


O papel do branco no mercado e indústria



Se por um lado as relações subjetivas e interpessoais são tamanhas que impossíveis de mensurar ou prever em sua especificidade, as relações estruturais se baseiam nesta relações, suas combinações e efeitos sociais. Um único branco que por algum motivo use turbante, realmente tem pouco impacto cultural. Mas o que acontece quando muitos brancos individualmente querem a mesma coisa? O que as empresas, o marketing, as instituições fazem quando brancos querem algo? O mercado se organiza para atender o desejo desses brancos. A regra da produção capitalista é: o branco quer alguma coisa, o mercado se move em torno deste desejo.

Um grande exemplo é a chamada Anti-age Industry, a indústria dos produtos anti-idade e rejuvenescimento, uma obsessão branca de mais de 2000 anos: não envelhecer, impedir o processo natural da vida, valorizar a juventude, demonizar o velho. Neste ano a indústria Anti-age movimentou mais de 216 bilhões. E nesta grana estão contidos médicos, cientistas, pesquisas acadêmicas, produção de produtos e serviços, propaganda, marketing, ideologia.  Claro que nem sempre é preciso fazer comparações para se propor um ponto de vista, mas só para imaginarmos o impacto, o mercado do tratamento e pesquisa da Aids e HIV teve investimento na casa dos 14 bilhões em 2016, dados americanos.  Claro que não há um rigor científico neste paralelo, mas dá para sentir um pouco o que o desejo de pessoas brancas fazem com o mercado no capitalismo.


Mas afinal, branco pode ou não usar turbante?


Depende. Se for pra ficar bonito, não, branco não pode usar turbante.





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