Manifesto do Samba Abstrato 2017 - Parte 1

Carnaval de 2017 (1)

Parte I

Sobre apropriação cultural e outros sambas


A cara do carnaval



Num mundo de imagens e símbolos, é preciso o máximo de criatividade estética visual para expressarmos nossas ideias. A impaciência do modelo de pensamento baseado na rapidez do processamento de dados, o mundo dos cliques e da falta de tempo para se debruçar nas questões e conceitos, sair do raso do lugar-comum antes de emitir opiniões e ter certezas é dos grandes dilemas contemporâneos. Tome seu tempo para ler as informações e digerir as ideias descritas a seguir e bom carnaval.

A pesquisadora na área de representação do negro na mídia, bacharel em História e educadora Suzane Jardim explica como se dá o processo de apropriação cultural: 

“O fenômeno acontece quando um estrato social historicamente dominante marginaliza uma etnia, religião ou cultura, tornando seus símbolos e práticas abomináveis aos olhos da sociedade. Com isso, o grupo marginalizado abandona tais práticas, como uma forma de se adequar, na tentativa de sofrer menos preconceito. Com esse processo concluído, o mesmo grupo responsável pela marginalização passa, então, a ressignificar essas práticas e símbolos antes condenados, tentando torná-los atrativos para a maioria da população e visando o lucro. Nesse processo, toda a essência simbólica dos elementos é perdida. Eles passam a ser apenas objetos de desejo, cada vez mais caros e inacessíveis para os que foram primeiramente hostilizados”.

Nesta parte do Manifesto vamos relacionar conceitos como Samba Abstrato e apropriação cultural ao racismo e etnocentrismo como facetas do capitalismo em seu formato atual. Falaremos sobre apropriação de forma estrutural mas também sobre o animus subjetivo que modela as relações interpessoais neste sistema de invasão cultural.

Falaremos sobre como o Carnaval em sua vertente escola de samba é constantemente apropriado e afastado de suas tradições estéticas para tornar-se um evento cada vez mais brasileiro, ou seja, apartado de suas raízes e tradições pretas e para ser mais atrativo para uma parcela da população que diz que não é racista, mas não quer ver muito preto nem uma festa onde o preto deveria ser o protagonista. Neste processo, a promiscuidade (2) que a proximidade com estes novos participantes proporciona, faz com que o desfile das escolas de samba seja um palco para pessoas que querem apenas lucrar e se promover com a cultura dos outros.


A Rainha trazida do exterior diante seus súditos?


Usaremos como elemento de apoio visual o conceito objetivo Rainha de Bateria, apenas para servir de exemplo do poderio etnocultural e econômico e propor como hipótese de pesquisa que se por um lado esta apropriação leva à degradação do espetáculo carnavalesco em sua estética, por outro incentiva os participantes originais da cultura a criarem novas tradições e formatos de expressão artística e política. As fotos que ilustram o texto são da página Samba Abstrato, onde este estudo transcorreu durante o carnaval 2016/2017. São fotos tiradas por fotógrafos profissionais e publicadas em sites e portais mostrando como se dá a participação desses integrantes ilegítimos nas agremiações carnavalescas.


Musa do Samba Abstrato em um ensaio técnico da Escola de Samba


Para mandar um papo bem reto, a ação conquistadora desses participantes intrusos e ilegítimos ao reificar o carnaval e seus simbolismos é necrófila, por melhores que sejam as motivações subjetivas conscientes desses indivíduos. No dizeres de Paulo Freire em sua Pedagogia do Oprimido:

"Em verdade, finalmente, não há realidade opressora que não seja necessariamente antidialógica , como não há antidialogicidade em que o polo dos opressores não se empenhe, incansavelmente, na permanente conquista dos oprimidos! As elites dominadoras de hoje, como as de todos os tempos, continuam precisando da conquista como uma espécie de pecado original, como pão-e-circo ou sem ele. Os conteúdos e os métodos da conquista variam historicamente, o que não varia, enquanto houver elite dominadora, é essa ânsia necrófila de oprimir".(3)



O que é Samba Abstrato? A estética da invasão cultural


É chamado Samba Abstrato aquele samba fruto da apropriação estrutural e pessoal do espetáculo de carnaval. Pode ser estendido para outras situações personalistas de usurpação cultural através de expressões como Rap Abstrato, Pagode Abstrato, Capoeira Abstrata e outras terminações criadas na dinâmica e socioleto das redes sociais.

O Abstrato parte da ideia de que de tão feio, tão ilegítimo e fora da tradição é o samba apresentado que é preciso abstrair para entender que aqueles movimentos. É também uma forma de mostrar que uma pessoa que tenha algum poder social (ser branca, artista, modelo) pode ser contemplada através desse privilégio com o maior reconhecimento que uma passista do espetáculo carnavalesco pode ter: representar a bateria da escola.


Considerada uma das Rainhas de Bateria mais importantes do Carnaval do Rio e São Paulo. Mas por quê?



É a Rainha da Bateria que não sabe sambar, o ritmista artista da novela que não sabe tocar, mas quer viver aquela experiência de forma fetichizada como se fosse sua, assim como as pessoas e empresas que usam o carnaval visando o lucro mesmo que seja às custas de sua integridade e saber artístico. Mas como é possível que pessoas que não tem a menor ligação com a escola de samba, seus caminhos e tradições consigam lugares de destaque na festa? Por que isso é aceitável?


Rainha de Bateria que não suporta o barulho da bateria. Bugamos.


Dado o destaque cultural e mediático do carnaval, desde os ensaios nas comunidades das escolas, passando pelo desfile em si e os escândalos da cobertura dos bastidores, muitas pessoas se utilizam desse palco para obter visibilidade.

Seguindo os ensinamentos de Jessé Souza, em a Ralé Brasileira (4), é possível apreender que o conflito racial e a ofensiva da supremacia branca se intensifica quando a classe excluída de todas as oportunidades materiais e simbólicas na sociedade alcança o reconhecimento social. Rapidamente o sistema se apropria desses espaços de expressões artísticas de forma a criar um controle, manter sua hegemonia e impedir a organização dos menos favorecidos. Além de é claro contemplar seu ego sedento por um reconhecimento que não lhe pertence.

Vamos fazer um comparativo com o funk, mas poderia ser qualquer tradição preta que fora apropriada pela indústria. O funk não é odiado por alguns, aqueles de sempre, apenas por ser música de favela, de preto, mas por quebrar a lógica do etnocentrismo e trazer outras pessoas ao foco. Esse é o carácter subjetivo que formata as relação interpessoais e que valida o caráter estrutural e econômico da dominação cultural, é o animus subjetivo que faz com que as pessoas representem qualquer papel para estarem no centro das atenções em detrimento dos verdadeiros artista. E é sobre isso que estamos falando quando usamos o termo necrofilia relacionado a necessidade de se afirmar como protagonista sem o ser e custe o que custar.

As musas se preparam o ano inteiro para mostrar o seu melhor no carnaval

A Rainha da Bateria é o símbolo da mulher mais bonita do carnaval, a bailarina principal entre os componentes da escola e que com sua graça e domínio do samba, do ritmo e da comunicação corporal motiva o coração da escola formado pelos ritmistas com sua dança, simpatia e beleza. Não é à toa que seja justamente este o posto desejado por modelos, atrizes, celebridades que não tem nada a ver com o carnaval mas se utilizam dele para ter seus 15 minutos de fama. Até aí, nada de novo sob o sol, mas o que acontece com o espetáculo carnavalesco quando tamanha concessão é cedida? O que seria de uma apresentação de ballet se a bailarina principal fosse uma modelo que ganhou o título porque ajuda financeiramente o ballet ou por que traz visibilidade para a companhia de dança?


Representando a rainha preta Cleopatra, de blackface, sambando pelada na frente de uma bateria e das várias câmeras de televisão posicionadas na avenida. 
Apropria mais que tá pouco.


Não saber sambar num espetáculo de dança é como não saber tocar numa banda ou não saber cozinhar e ser um chef de cozinha. Só é possível imaginar tamanha abstração quando se compreende que tal situação só é possível quando vivemos em um sistema que esvazia de conteúdo tudo o que é preto. A mensagem é que qualquer uma pode ser uma rainha de bateria, não é preciso sequer saber sambar, mas estar disposta a pagar, seja com tempo, seja com exposição mediática e fazer a dualidade do "eu te uso e você me usa". A escola recebe os bônus da presença mediática da rainha, que usa o posto de para aumentar seu capital social. Já o ônus é comprometer a integridade estética do enredo e romper com sua cultura. Na lógica antidialógica na situação da conquista, a opressão (apropriação) não é apenas econômica mas cultural, roubando ao oprimido-conquistado sua presença, sua expressividade e tomando sua cultura. E viva o carnaval.

Outra forma de dominação gradual é a criação da oposição entre o moderno e o tradicional. Venceu a escola moderna, dizem as manchetes do jornais exaltando que uma escola de maioria de pessoas brancas em sua administração e que tocam a escola de samba como um negócio de eventos e espetáculos de samba, em nada se parecendo com a vocação natural e social da agremiação carnavalesca. Obviamente que não tira o mérito ou o brilho da escola vencedora, mas uma vez criada a oposição, veremos uma ofensiva direta a tudo o que é tradicional, de raiz, original (preto) ser substituído de forma sistêmica pelo moderno, capitalista (branco) em um movimento de neoliberalização (desculpem o termo chulo) que pode facilmente levar a apropriação total dos bens culturais do carnaval em nome da lógica do mercado. E as relações interpessoais que em um momento inicial eram dialógicas tornam-se opositoras e reafirmadoras dos mecanismos sociais de opressão do preto e de tudo o que é relacionado ao preto.

Unindo a isso a exclusão social naturalizada, onde indivíduos vivem em situação de vulnerabilidade constante, qualquer iniciativa de empoderamento e libertação econômica é rapidamente absorvido pelo sistema e assim é o carnaval. A apropriação cultural só existe porque o poder não pertence aos donos da cultura, aos participantes originais.(4.1)

O carnaval é em sua essencial plural. Antes das frases mediáticas modernas sobre inclusão e diversidade, desde os tempos da avenida São João, passando pela Tiradentes em São Paulo até chegar ao espetáculo do Anhembi, uma escola de samba já era formada por pretos, brancos, portadores de capacidades especiais, idosos, crianças, jovens, pobres. Todos estavam presentes e incluídos no carnaval. Mas daí a televisão comercial chegou e com ela as marcas e a invasão cultural que se deu desde então vêm servindo à conquista desde espaço de expressão ancestral. E neste sentido, essa invasão que é essencialmente alienante, mesmo que festiva, carnavalesca, simpática e feliz. Ainda assim é uma violência porque retira sua originalidade e impõe através de ideias sobre superioridade, profissionalismo, mercantização, adequação aos novos tempos que trazem os invasores com seus novos critérios. Não se pode dar ao luxo de consentir na unificação das massas populares, que significaria, indiscutivelmente, uma séria ameaça à sua hegemonia. Desrespeitando as potencialidades do ser a que condiciona, a invasão cultural é a penetração que fazem os invasores no contexto cultural dos invadidos, impondo a estes suas visão de mundo, enquanto lhes freiam a existência ao inibirem sua expansão.




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Manifesto do Samba Abstrato - 2017 - Parte 1