O Manifesto do Samba Abstrato

lindamarxs Carnaval de 2017(1)



Parte I


Sobre apropriação cultural e outros sambas



A cara do carnaval



Num mundo de imagens e símbolos, é preciso o máximo de criatividade estética visual para expressarmos nossas ideias. A impaciência do modelo de pensamento baseado na rapidez do processamento de dados, o mundo dos cliques e da falta de tempo para se debruçar nas questões e conceitos, sair do raso do lugar-comum antes de emitir opiniões e ter certezas é dos grandes dilemas contemporâneos. Tome seu tempo para ler as informações e digerir as ideias descritas a seguir e bom carnaval.




Pesquisadora na área de representação do negro na mídia, a bacharel em História e educadora Suzane Jardim explica como se dá o processo de apropriação cultural.



“O fenômeno acontece quando um estrato social historicamente dominante marginaliza uma etnia, religião ou cultura, tornando seus símbolos e práticas abomináveis aos olhos da sociedade. Com isso, o grupo marginalizado abandona tais práticas, como uma forma de se adequar, na tentativa de sofrer menos preconceito. Com esse processo concluído, o mesmo grupo responsável pela marginalização passa, então, a ressignificar essas práticas e símbolos antes condenados, tentando torná-los atrativos para a maioria da população e visando o lucro. Nesse processo, toda a essência simbólica dos elementos é perdida. Eles passam a ser apenas objetos de desejo, cada vez mais caros e inacessíveis para os que foram primeiramente hostilizados”.



Nesta parte do Manifesto vamos relacionar conceitos como Samba Abstrato e apropriação cultural ao racismo e etnocentrismo como facetas do capitalismo em seu formato atual. Falaremos sobre apropriação de forma estrutural mas também sobre o animus subjetivo que modela as relações interpessoais neste sistema de invasão cultural.


Falaremos sobre como o Carnaval em sua vertente escola de samba é constantemente apropriado e afastado de suas tradições estéticas para tornar-se um evento cada vez mais brasileiro, ou seja, apartado de suas raízes e tradições pretas e para ser mais atrativo para uma parcela da população que diz que não é racista, mas não quer ver muito preto nem uma festa onde o preto deveria ser o protagonista. Neste processo, a promiscuidade (2) que a proximidade com estes novos participantes proporciona, faz com que o desfile das escolas de samba seja um palco para pessoas que querem apenas lucrar e se promover com a cultura dos outros.



A Rainha trazida do exterior diante seus súditos?


Usaremos como elemento de apoio visual o conceito objetivo Rainha de Bateria, apenas para servir de exemplo do poderio etnocultural e econômico e propor como hipótese de pesquisa que se por um lado esta apropriação leva à degradação do espetáculo carnavalesco em sua estética, por outro incentiva os participantes originais da cultura a criarem novas tradições e formatos de expressão artística e política. As fotos que ilustram o texto são da página Samba Abstrato, onde este estudo transcorreu durante o carnaval 2016/2017. São fotos tiradas por fotógrafos profissionais e publicadas em sites e portais mostrando como se dá a participação desses integrantes ilegítimos nas agremiações carnavalescas.


Musa do Samba Abstrato em um ensaio técnico da Escola de Samba

Para mandar um papo bem reto, a ação conquistadora desses participantes intrusos e ilegítimos ao reificar o carnaval e seus simbolismos é necrófila, por melhores que sejam as motivações subjetivas conscientes desses indivíduos. No dizeres de Paulo Freire em sua Pedagogia do Oprimido:




"Em verdade, finalmente, não há realidade opressora que não seja necessariamente antidialógica , como não há antidialogicidade em que o polo dos opressores não se empenhe, incansavelmente, na permanente conquista dos oprimidos! As elites dominadoras de hoje, como as de todos os tempos, continuam precisando da conquista como uma espécie de pecado original, como pão-e-circo ou sem ele. Os conteúdos e os métodos da conquista variam historicamente, o que não varia, enquanto houver elite dominadora, é essa ânsia necrófila de oprimir".(3)






O que é Samba Abstrato? A estética da invasão cultural


É chamado Samba Abstrato aquele samba fruto da apropriação estrutural e pessoal do espetáculo de carnaval. Pode ser estendido para outras situações personalistas de usurpação cultural através de expressões como Rap Abstrato, Pagode Abstrato, Capoeira Abstrata e outras terminações criadas na dinâmica e socioleto das redes sociais.

O Abstrato parte da ideia de que de tão feio, tão ilegítimo e fora da tradição é o samba apresentado que é preciso abstrair para entender que aqueles movimentos. É também uma forma de mostrar que uma pessoa que tenha algum poder social (ser branca, artista, modelo) pode ser contemplada através desse privilégio com o maior reconhecimento que uma passista do espetáculo carnavalesco pode ter: representar a bateria da escola.


Considerada uma das Rainhas de Bateria mais importantes do Carnaval do Rio e São Paulo. Mas por quê?

É a Rainha da Bateria que não sabe sambar, o ritmista artista da novela que não sabe tocar, mas quer viver aquela experiência de forma fetichizada como se fosse sua,  assim como as pessoas e empresas que usam o carnaval visando o lucro mesmo que seja às custas de sua integridade e saber artístico. Mas como é possível que pessoas que não tem a menor ligação com a escola de samba, seus caminhos e tradições consigam lugares de destaque na festa? Por que isso é aceitável?


Rainha de Bateria que não suporta o barulho da bateria. Bugamos.



Dado o destaque cultural e mediático do carnaval, desde os ensaios nas comunidades das escolas, passando pelo desfile em si e os escândalos da cobertura dos bastidores, muitas pessoas se utilizam desse palco para obter visibilidade.



Seguindo os ensinamentos de Jessé Souza, em a Ralé Brasileira (4), é possível apreender que o conflito racial e a ofensiva da supremacia branca se intensifica quando a classe excluída de todas as oportunidades materiais e simbólicas na sociedade alcança o reconhecimento social. Rapidamente o sistema se apropria desses espaços de expressões artísticas de forma a criar um controle, manter sua hegemonia e impedir a organização dos menos favorecidos. Além de é claro contemplar seu ego sedento por um reconhecimento que não lhe pertence.


Vamos fazer um comparativo com o funk, mas poderia ser qualquer tradição preta que fora apropriada pela indústria. O funk não é odiado por alguns, aqueles de sempre, apenas por ser música de favela, de preto, mas por quebrar a lógica do etnocentrismo e trazer outras pessoas ao foco. Esse é o carácter subjetivo que formata as relação interpessoais e que valida o caráter estrutural e econômico da dominação cultural, é o animus subjetivo que faz com que as pessoas representem qualquer papel para estarem no centro das atenções em detrimento dos verdadeiros artista. E é sobre isso que estamos falando quando usamos o termo necrofilia relacionado a necessidade de se afirmar como protagonista sem o ser e custe o que custar. 


Essas musas se preparam o ano inteiro para mostrar o seu melhor no carnaval



A Rainha da Bateria é o símbolo da mulher mais bonita do carnaval, a bailarina principal entre os componentes da escola e que com sua graça e domínio do samba, do ritmo e da comunicação corporal motiva o coração da escola formado pelos ritmistas com sua dança, simpatia e beleza. Não é à toa que seja justamente este o posto desejado por modelos, atrizes, celebridades que não tem nada a ver com o carnaval mas se utilizam dele para ter seus 15 minutos de fama. Até aí, nada de novo sob o sol, mas o que acontece com o espetáculo carnavalesco quando tamanha concessão é cedida? O que seria de uma apresentação de ballet se a bailarina principal fosse uma modelo que ganhou o título porque ajuda financeiramente o ballet ou por que traz visibilidade para a companhia de dança?


Representando a rainha preta Cleopatra, de blackface, sambando pelada na frente de uma bateria e das várias câmeras de televisão posicionadas na avenida. Apropria mais que tá pouco.


Não saber sambar num espetáculo de dança é como não saber tocar numa banda ou não saber cozinhar e ser um chef de cozinha. Só é possível imaginar tamanha abstração quando se compreende que tal situação só é possível quando vivemos em um sistema que esvazia de conteúdo tudo o que é preto. A mensagem é que qualquer uma pode ser uma rainha de bateria, não é preciso sequer saber sambar, mas estar disposta a pagar, seja com tempo, seja com exposição mediática e fazer a dualidade do "eu te uso e você me usa". A escola recebe os bônus da presença mediática da rainha, que usa o posto de para aumentar seu capital social. Já o ônus é comprometer a integridade estética do enredo e romper com sua cultura. Na lógica antidialógica na situação da conquista, a opressão (apropriação) não é apenas econômica mas cultural, roubando ao oprimido-conquistado sua presença, sua expressividade e tomando sua cultura. E viva o carnaval.

Outra forma de dominação gradual é a criação da oposição entre o moderno e o tradicional. Venceu a escola moderna, dizem as manchetes do jornais exaltando que uma escola de maioria de pessoas brancas em sua administração e que tocam a escola de samba como um negócio de eventos e espetáculos de samba, em nada se parecendo com a vocação natural e social da agremiação carnavalesca. Obviamente que não tira o mérito ou o brilho da escola vencedora, mas uma vez criada a oposição, veremos uma ofensiva direta a tudo o que é tradicional, de raiz, original (preto) ser substituído de forma sistêmica pelo moderno, capitalista (branco) em um movimento de neoliberalização (desculpem o termo chulo) que pode facilmente levar a apropriação total dos bens culturais do carnaval em nome da lógica do mercado. E as relações interpessoais que em um momento inicial eram dialógicas tornam-se opositoras e reafirmadoras dos mecanismos sociais de opressão do preto e de tudo o que é relacionado ao preto.

Unindo a isso a exclusão social naturalizada, onde indivíduos vivem em situação de vulnerabilidade constante, qualquer iniciativa de empoderamento e libertação econômica é rapidamente absorvido pelo sistema e assim é o carnaval. A apropriação cultural só existe porque o poder não pertence aos donos da cultura, aos participantes originais.(4.1)

O carnaval é em sua essencial plural. Antes das frases mediáticas modernas sobre inclusão e diversidade, desde os tempos da avenida São João, passando pela Tiradentes em São Paulo até chegar ao espetáculo do Anhembi, uma escola de samba já era formada por pretos, brancos, portadores de capacidades especiais, idosos, crianças, jovens, pobres. Todos estavam presentes e incluídos no carnaval. Mas daí a televisão comercial chegou e com ela as marcas e a invasão cultural que se deu desde então vêm servindo à conquista desde espaço de expressão ancestral. E neste sentido, essa invasão que é essencialmente alienante, mesmo que festiva, carnavalesca, simpática e feliz. Ainda assim é uma violência porque retira sua originalidade e impõe através de ideias sobre superioridade, profissionalismo, mercantização, adequação aos novos tempos que trazem os invasores com seus novos critérios. Não se pode dar ao luxo de consentir na unificação das massas populares, que significaria, indiscutivelmente, uma séria ameaça à sua hegemonia. Desrespeitando as potencialidades do ser a que condiciona, a invasão cultural é a penetração que fazem os invasores no contexto cultural dos invadidos, impondo a estes suas visão de mundo, enquanto lhes freiam a existência ao inibirem sua expansão.








Parte II


Cara de branco e os novos objetos




A peça Les Nègres de Jean Genat sendo encenada em Lyon, na França

“Cette pièce, je le répète, écrite part un Blanc, est destinée à un public de Blancs. Mais si, par improbable, elle était jouée un soir devant un public de Noirs, il faudrait qu’à chaque representaqtion un Blanc fût inveité – mâle ou femelle.L’organisateur du ?spetacle ira le recevoir sonlennellement, le fera habiller d’un costume de cérémionie et le conduita à as place, de préférence au centre de la première rangée des fauteils d’orchestre. On jouera pour lui. Sur ce Blanc symbolique un projecteur sera dirigé durant tout le spetacle. Et si aucun Blanc n’acceptait cette représentation? Qu’on distribui au public noir à l’entrée de la salle des masques de Blancs. Et si les Noirs refusent les masques qu on utilize un mannequin” (5)


Jovens pretos com perucas loiras muito pó-de-arroz na cara, simulando subornos, criando farsas e zombando da elite branca e da sua semântica. São pretos, mestiços, brasileiros caracterizados de forma exagerada representando a elite brasileira no Baile da Lolo em um quilombo urbano em São Paulo. 


                Baile da Lolo - Anexo do Manifesto do Samba Abstrato 2017
Coletivo do Samba Abstrato - Baile da Lolo - foto: Caroline Nocetti

No Rio de Janeiro, o Bloco das Brancas Desequilibras vem para o carnaval com fantasias bem conhecidas de todos os pretos brasileiros: supremacia branca, musa da sororidade, leite com pera, paneleira, branca de turbante, entre outras.

Em comum os dois carnavais utilizam a estética chamada de whiteface que é caracterizar-se como pessoas brancas em seus papéis sociais (6). Pode ser através das roupas, trejeitos ou a caracterização e maquiagem branca, mas PRINCIPALMENTE PELO O QUE PENSAM, FALAM E FAZEM OS BRANCOS, não apenas por serem brancos, entende? E isso faz toda a diferença.


Vamos aos fatos relativos ao assunto deste texto. É carnaval e surge o impasse: no momento onde a apropriação cultural é tema em alta como é possível validar a representação de “brancos” por pretos? “Se não pode nega maluca, por que branca maluca é aceitável? “ gritou uma branca-de-turbante-desconstruidona-do-somos-todos-iguais.

É preciso ser dialógico para confrontar toda a manipulação das falsas simetrias que empesteiam a internet, a academia e a mentalidade geral. Para começar, nem é preciso falar que sendo o racismo um sistema de poder, pretos não tem condições de oprimir brancos de forma social ou estrutural, logo a hipótese acadêmica da utilização pelo oprimido das armas do opressor ou qualquer ranço de ideia tresloucada de racismo reverso está descartada.

O devaneio de que estimular esse tipo de expressão artística e política poderiam trazer como consequência o aumento do racismo (argumentum ad consequenatiam) é algo sempre dito por pessoas que geralmente começa seus discursos com ("eu tenho medo", "pode ser perigoso", "eu acho legal mas o problema"). Para estes, digo que seus desejos pessoais nem sempre se tornarão realidade e que se acostumem com isso. Seguimos.



Whiteface is generally criticism, whileblack face is degradation.

O whiteface é usado como ferramenta crítica e estética para fazer o debate social. No teatro, Jean Genet em sua obra de 1958 Les Nègres utilizou o mecanismo do whiteface. Nas artes contemporâneas, a artista Renata Felinto em seu White face with Blonde hair  de 2012 traz o whiteface como elemento estruturante da performance assim como a Diretora e Performer Ntando Cele em seu projeto Black Off (7) que será apresentado em março na (polêmica?) Mostra Internaciona de Teatro. (8)


Ntendo Cele - Black Off




O whiteface é também um artifício da comédia-crítica, como já fizeram o gênio Dave Chapelle na TV, The Waynes Brothers no cinema, e até Snoop Dog na música criou o personagem Todd. Note que no whiteface, a representação é a mais fiel possível não se utilizando dos exageros grotescos e focando mais no papel socio-econômico desses personagens e o impacto de suas existências na vida dos outros que não são eles.





Estas novas tradições ou tradições continuadas e revividas de certa maneira cumprem a experiência histórica de romper com a aderência ao opressor e torná-lo objeto, reconhecendo-se assim sua contradição antagônica e demonstrando a ação antidialógica que implica que um sujeito conquistando o outro o transforme em quase coisa. 


O dilema da falsa simetria e o samba que vai até o amanhecer‬



O turbante coletivo que habitamos foi constantemente racializado,desrespeitado, invadido, dessacralizado, criminalizado. Onde estavam vocês quando tudo isto acontecia?




Por que quando somos zoadas e desumanizadas como negas malucas vocês não vieram nos defender e dizer que somos todos iguais? Somos signos criados pelos brancos para que nossa negritude possa ser mercantilizada porque são vocês que determinam quem somos, o que queremos e podermos fazer.
E quando se sabe tão pouco, bem disse Jesse de Souza, sobre assuntos tão complexos, não só não se admite que não se sabe como tenta-se passar a impressão de que se sabe muito e seguindo a tradição de se calar qualquer voz preta em protesto, apenas o que vocês querem é contemplado e para nós nos resta o papel de coadjuvantes da nossa própria história contada por vocês.

Estas mesmas pessoas que despejam seu não-saber, o não conhecimento criando falsas simetrias chegam com suas fontes e falácias do tipo, "turbantes foram inventados pelos persas, logo, geral (eles) podemos usar como e quando quiser" nos calam, tomam nosso turbante, nosso carnaval, nossa cultura e o sucesso dessa estratégia pode se medir a partir de quanto conseguem tirar dos diversos elementos sua característica de distinção cultural do povo preto.

Carnaval na Guyana Francesa

A falsa simetria ou falsa analogia que nasce entre nega maluca X branca maluca é um exemplo dessa despegamento à construção de um debate realista e transformador. Enquanto a primeira é apenas degradante e grotesca degenerativa, a ideia de uma personagem com o universo de Lolo Figueira, por exemplo, demonstra uma complexidade da construção semântica que permite que várias camadas de debate, humor, sátira, crítica.  Diante dos exemplos de personagens complexos motivados como os demonstrados acima, o ponto de virada é onde privilegio de ser quem se é e decidir por ter um local e o objeto de  de fala bate de frente com opiniões montadas no privilégio branco de sempre ter razão. 


Porque o branco sempre foi objeto de outros brancos, o branco no sentido social do privilégio, o que oprime, o que corrompe. Em filmes, novelas, na cultura em geral o grande vilão tem os olhos azuis. Mas como não se reconhecem como grupo, o choque racial de escolhas estéticas como whiteface ou mesmo linguísticas ao usar a palavra branco, mostrou aos brancos o que eles nunca havia se visto: como objeto da piada dos outros.


Dave Chapelle

Existe whiteface (9) mas não é o que você pensa porque brancos nunca foram limitados de serem e existirem socialmente, não tiverem seus hábitos e costumes questionados e apropriados. E a rigor, representar o branco como fútil, corrupto e alienado não é tarefa únicas dos pretos em suas novas estéticas. Utilizando o whiteface, não se busca desumanizar os brancos ou criar algo que remotamente seja chamado racismo reverso (10) Nenhum direito foi negado ou retirado dos brancos porque algum preto colocou uma peruca loira. Diferente da invocação racista de tradição do sarro contra as mulheres pretas apenas por serem pretas, por serem o grupo mais vulnerável da sociedade, o que ganha menos, o que é menos representado, usar o blackface é a perpetuação do racismo estrutural e da apropriação cultural feitos pelo privilégio branco que pode se servir de expressões culturais pretas e seguir um projeto colonialista da noção de negritude e para que ou quem servem os pretos. 




Parte III


O Carnaval me deu tudo


Neste carnaval ela não veio nua






CARNAVAL É DELÍRIO e neste ano, ela não estava nua. Estava linda, preta, embranquecida, sambava, trazia o incômodo e a problematização e sorria como em todos os anos, mas este ano ela não estava nua e tudo mudou.

A moral sexual e estética que afeta o corpo das mulheres PRETAS é alimentada pelo racismo e por uma indústria mediática que fetichiza os pretos como criadores de culturas e de corpos a serem apropriados e feitos produtos da nossa cultura protagonizada por eles. Usar a mulher preta, escondida e silenciada o resto do ano como símbolo lascivo do carnaval, o oximoro da liberdade da mulher e das incompatibilidade entre o feminismo branco da liberdade individual da mulher mostrar o seu corpo e o mulherismo africana e a ideia de que nossos corpos pretos já foram mostrados. Pois não somos nós que viemos nuas dentro dos barcos, onde nos tocam, usavam, compravam, vendiam, logo a agenda da proteção do corpo da mulher preta é tão libertadora quanto.



A Globeleza não está mais nua e mesmo sabendo que mais de 50 mil jovens pretos morrerão este ano, muitas injustiças vão acontecer, mas este anos ela não veio nua nós vencemos de novo. #nãopassarão


E assim segue a Revolução Humanista da Mulher Preta, e nos dizeres de Acquiles Mbembe e sua Razão Negra que temos que reconhecer o enegrecimento do mundo em uma época de crepúsculo europeu e o substantivo negro para ele é compreendido como toda a humanidade subalterna, incluindo as hordas de operários mal remunerados, os refugiados, os que perderam tudo para o capitalismo, as mulheres trabalhadoras oprimidas.  É para todos eles e todos nós que as PRETAS estão fazendo a revolução, para os condenados da terra. Assim o foi e assim o é, ontem e hoje, quando uma mulher preta vence, vencemos todos.




O Carnaval me deu tudo




O Carnaval me deu tudo. Me deu a oportunidade de aprender que sou descendente de Faraós, que somos os filhos originais da terra requebrando nos samba-reggaes e axés originais da Bahia. Aprendi também a história do meu povo nos samba enredos, as lutas e vitórias dos personagens que não estavam nas salas de aulas, mas ali na avenida representados por uma princesa porta-bandeira e seu cavalheiro mestre sala, preta como eu no palco da avenida.

O que o que o carnaval me deu, nem 30 anos sentadas numa sala de aula foram capazes. E mesmo no inferno cinza do liberalismo triunfalista, nem que eu desse sete voltas ao redor da árvore do esquecimento, eu deixaria de viver louvar, proteger e viver o Carnaval.



Não fui que fiz o rap, o rap foi que me fez - Criolo



:: Efigenias ::





Manifesto do Samba Abstrato



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Referências


(1) A motivação afetiva desde trabalho é a dor e a tristeza que vêm com a injustiça. E do medo e da coragem que nasce do medo e da força que vem da adversidade e do amor dos meus. Não tem mais volta. Nunca teve.

(2) Promiscuidade no sentido francês de Promiscuité, uma aproximação forçada que degenera a relação entre as pessoas.


(3) Pedagogia do Oprimido, Paulo Freire. Editora Paz e Terra - 60º edição. Página 218 e seguintes.


(4) ralé brasileira – Quem é e como vive, Jessé Souza, André Grillo et AL. (colaboradores), Coleção: Humanitas 2009.

(4.1) "O mito de que as elites dominadoras, “no reconhecimento de seus deveres”, são as promotoras do povo devendo este, num gesto de gratidão, aceitar sua palavra e conformar-se com ela. O mito de que a rebelião do povo é um pecado contra deus. O mito de que a propriedade privada, com fundamento do desenvolvimento da pessoa humana, desde, porém, que pessoas humanas sejam apenas os opressores. O mito da operosidade dos opressores e o da preguiça e desonestidade dos oprimidos. O mito da inferioridade ontológica destes e da superioridade daqueles. Todos estes mitos e mais outros que o leitor poderá acrescentar, cuja introjeção pelas massas populares oprimidas é básica para a sua conquista, são levados a elas pela propagando bem organizada, pelos slogans, cujos veículos são sempre chamados meios de comunicação com as massas. Como se o depósito deste conteúdo alienante nelas fosse realmente comunicação." Pedagogia do Oprimido, Paulo Freire. Editora Paz e Terra - 60º edicação. Página 218 e seguintes.

(5) Trecho retirado da pela Les Nègres de Jean Genet, Collection Folio - página 15:  “Esta peça, eu repito, foi escrita por um branco e é destinada a um publico de brancos. Mas se de forma improvável ela for encenada para um público de pretos, é necessário que a cada apresentação um branco seja convidado - homem ou mulher. o organizador do espetáculo era receber esse branco solenemente, o fara se vestir de traje de cerimonia e le conduzirá a seu lugar, de preferencia no centro na primeira fileiras de cadeiras da orquestra. nós apresentaremos para ele. sobre este branco simbólico um projetos será lançado sobre ele durante todo o espetáculo. E se nenhum branco aceitar essa representação nos distribuiremos ao público preto na entrada da sala mascaras de brancos e se os pretos recusarem as mascaras, utilizaremos um manequim."

(6) Referência: preppy, alt-right, aristocrata, burguês, socialite, paneleiro, coxinha, rico


(7) Ntando Cele, nascida na cidade de Durban, na província de KwaZulu-Natal, na África do Sul, aborda e enfrenta estereótipos racistas em Black Off. Na primeira parte do espetáculo, a performer e atriz assume o seu alter ego intitulado Bianca White, uma comediante sul-africana, viajante do mundo e filantropa, que julga saber tudo sobre negros no mundo inteiro ainda quer ajudá-los a superar a sua “escuridão interior”. Na segunda parte, Ntando Cele lida com estereótipos de mulheres negras e tenta descobrir como o público a vê. Existe a possibilidade de mulheres negras serem “apenas” artistas ou elas sempre carregam o fardo da raça e do gênero em qualquer coisa que façam? O espetáculo se estrutura como uma mistura de comédia stand-up, concerto e performance.



"Este ato de guerrilha estética surge da impossibilidade, surge da restrição, surge da necessidade de defender a existência, a vida e a poética. Surge do ato de ter voz. Ser invisibilizado é desaparecer, desaparecer é perder o passado e interditar o futuro, portanto não é uma opção.
Esta performance foi feita por um grupo de atrizes e atores, que faziam parte do elenco de espetáculo chamado “Exhibit B” (polêmico espetáculo do sul-africano Brett Bailey que investiga a exploração na África colonial e pós-colonial, e que foi contestada por movimentos negros do Brasil). Mas o trabalho foi cancelado e, dentre todos os envolvidos, eles foram os únicos que não foram ouvidos."

(9) Ano passado, eu escrevi o  texto #LoloFigueiroanoCarnaval onde eu declarava veementemente não existir Whiteface. No desenrolar no ano seguinte, durante o carnaval e a pesquisa para este texto, novas ideias vieram a minha mente e reconheci whiteface como ferramenta de humor e crítica social. Vivendo e aprendendo.

(10) Racismo reverso não existe.





Um comentário:

  1. Fantástico. Máximo Respeito. Várias referências interessantíssimas para se procurar/pesquisar a partir deste texto.. Valeu demais!!!

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